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PETRÓLEO E ENERGIA

Petróleo a US$ 95 com Ormuz sob ataque: o que muda para a Petrobras, para a bomba e para a inflação

Escalada entre Estados Unidos e Irã leva Brent novamente à região de US$ 95 e amplia pressão sobre preços dos combustíveis no Brasil; última leitura da Abicom apontava gasolina R$ 1,48 abaixo da paridade e diesel com diferença de R$ 2,89 por litro

A nova escalada militar no Oriente Médio recolocou o petróleo próximo de US$ 95 por barril e voltou a pressionar uma das variáveis mais importantes para o mercado brasileiro: o preço dos combustíveis praticado pela Petrobras.

Nesta quarta-feira (2), o Brent chegou a US$ 97,04 durante as negociações, antes de recuar para a região de US$ 94. Dois petroleiros foram atingidos por minas ao tentar atravessar o Estreito de Ormuz, enquanto Estados Unidos e Irã voltaram a trocar ataques. Antes do conflito, a passagem concentrava aproximadamente um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente.

Para o investidor brasileiro, a alta produz um efeito duplo. De um lado, petróleo mais caro tende a favorecer a geração de receita da Petrobras na exploração e produção. De outro, quanto maior e mais duradoura for a alta, maior fica a distância entre os preços internacionais dos derivados e os valores praticados no mercado doméstico.

Esse segundo movimento é o que conecta diretamente a crise em Ormuz à gasolina, ao diesel e à inflação brasileira.

Quanto está a defasagem da gasolina e do diesel?

A leitura diária mais recente disponível da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), divulgada na terça-feira (1º), mostrava uma diferença expressiva entre os preços domésticos e a paridade de importação.

Na média nacional, o diesel A S10 apresentava defasagem de 88%, equivalente a R$ 2,89 por litro, enquanto a gasolina A operava 58%, ou R$ 1,48 por litro, abaixo da referência internacional. No dia anterior, as diferenças eram de 83% no diesel e 61% na gasolina.

Os números ajudam a dimensionar a pressão, mas não significam que a Petrobras precise elevar seus preços exatamente em R$ 1,48 ou R$ 2,89.

A paridade de importação considera não apenas petróleo e câmbio, mas também preços internacionais dos derivados, frete e outros custos associados à entrada do produto no país. Além disso, a Petrobras deixou de seguir uma política de alinhamento automático ao mercado internacional e afirma que procura evitar a transferência de oscilações conjunturais para os preços domésticos.

A pressão, entretanto, aumenta quando o petróleo permanece elevado durante períodos mais longos.

O que a Petrobras fez quando o petróleo disparou anteriormente?

O comportamento da Petrobras durante os choques de 2026 mostra justamente que a companhia não tem repassado imediatamente toda a valorização internacional.

Em março, após forte alta do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio, a estatal aumentou em R$ 0,38 por litro o preço do diesel A vendido às distribuidoras. Considerando a mistura com biodiesel, a companhia calculou na ocasião um impacto equivalente a R$ 0,32 por litro sobre o diesel B.

Na gasolina, a resposta veio no fim de maio. A Petrobras anunciou um aumento de R$ 0,48 por litro para as distribuidoras, mas aderiu simultaneamente a uma subvenção econômica de R$ 0,44 por litro. Na prática, o preço médio efetivamente cobrado das distribuidoras aumentou apenas R$ 0,04 por litro.

O diesel passou por mecanismo semelhante. Em junho, um ajuste de R$ 1,12 por litro foi compensado por desconto de mesmo valor ligado à subvenção do governo, evitando alteração líquida para as distribuidoras. Posteriormente, em julho, o preço médio permaneceu em R$ 3,30 por litro.

O histórico mostra, portanto, uma combinação de três instrumentos: espera para distinguir uma alta temporária de uma mudança persistente do mercado, reajustes seletivos e uso de mecanismos de subvenção para reduzir o impacto ao consumidor.

O risco agora é que uma permanência do Brent perto ou acima de US$ 95 reduza o espaço para manter essa estratégia sem ampliar ainda mais a diferença em relação ao mercado externo.

O petróleo a US$ 95 é bom para PETR4?

Para as ações da Petrobras, o primeiro movimento do mercado foi positivo.

Na terça-feira (1º), PETR4 avançou 4,11%, para R$ 46,87, acompanhando a valorização do petróleo. O Brent encerrou aquele pregão a US$ 94,65, com alta de 4,6%.

O motivo é direto: a Petrobras é uma grande produtora e exportadora de petróleo. Um barril mais caro, mantidos os demais fatores, eleva o valor da produção e pode favorecer receita, geração de caixa e resultado da área de exploração e produção.

Mas a equação não termina aí.

Uma defasagem muito elevada nos combustíveis pode reduzir o benefício da alta internacional na área de refino e aumentar as dúvidas do mercado sobre a política de preços. Para o acionista, portanto, importa não apenas quanto vale o Brent, mas quanto desse novo patamar a Petrobras consegue capturar em seus diferentes negócios.

Quanto uma alta da gasolina poderia acrescentar ao IPCA?

É aqui que o choque de petróleo deixa de ser apenas uma questão para investidores.

A gasolina tinha peso de 5,22% no IPCA em julho, de acordo com dados do IBGE compilados pela Secretaria de Política Econômica. No próprio mês, uma queda de 1,37% no preço da gasolina retirou aproximadamente 0,07 ponto percentual do índice.

Essa participação permite calcular cenários simples para dimensionar o risco.

Se o preço médio da gasolina na bomba subisse 5%, o impacto direto seria próximo de 0,26 ponto percentual no IPCA. Uma alta de 10% produziria aproximadamente 0,52 ponto percentual. Com avanço de 15%, o efeito direto se aproximaria de 0,78 ponto percentual.

São exercícios estáticos, e não projeções de inflação. Eles pressupõem que a variação seja integralmente captada pelo índice e mantêm todos os demais preços constantes.

O efeito total de um choque do petróleo também pode ser maior porque não termina na gasolina. Diesel mais caro aumenta custos de transporte e logística, enquanto o querosene de aviação pode pressionar as passagens aéreas.

A Petrobras, inclusive, já reajustou em setembro o preço médio do querosene de aviação em 13,9%, ou R$ 0,68 por litro, em meio ao novo aumento dos custos internacionais.

O motorista já deve esperar gasolina mais cara?

Não necessariamente.

O preço médio da gasolina no Brasil estava em aproximadamente R$ 6,53 por litro na última semana de agosto. Desse valor, cerca de R$ 1,78 correspondia à parcela da Petrobras; o restante estava relacionado a etanol anidro, impostos e margens de distribuição e revenda.

Isso significa que mesmo um reajuste relevante na refinaria não chega à bomba na mesma proporção.

A variável decisiva agora é a duração do choque.

Se o fluxo de petróleo por Ormuz continuar ocorrendo e o Brent devolver rapidamente o prêmio de risco, a Petrobras ganha espaço para manter a estratégia de esperar a volatilidade diminuir. Nesta quarta-feira, mais de 17 milhões de barris haviam conseguido atravessar o estreito na segunda-feira, informação que ajudou a fazer o Brent recuar depois de tocar US$ 97.

Se os ataques reduzirem de forma mais duradoura a circulação de navios e o petróleo se consolidar acima de US$ 95 ou avançar para mais de US$ 100, a discussão muda.

Nesse cenário, aumenta simultaneamente o potencial de ganho da Petrobras como produtora de petróleo, a pressão por reajustes dos combustíveis e o risco de que o choque de Ormuz termine chegando ao consumidor brasileiro — primeiro na bomba e, depois, no IPCA.

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Plataforma de petróleo em operação no mar, acompanhada por uma embarcação de apoio.
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil