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Nelogica
Rui das Neves

O boleto não quer saber de papo. A bola de neve dos condomínios está estourando

O assunto hoje é daqueles de fazer qualquer incauto perder o sono antes mesmo do terceiro gole do chope da sexta-feira. Parece que o nosso síndico lá de Brasília esqueceu de avisar que o condomínio chamado Brasil tá com as contas no vermelho. A coisa “tá russa”, ou melhor, tá cara mesmo. O boleto do condomínio, que antes passava meio batido na planilha de custos, virou o grande vilão da classe média. E olha que não sou eu que tô inventando drama não. Os números estão aí para jogar água no nosso chope.

Vamos aos fatos: em 2025, quase 12 em cada 100 apartamentos no país fecharam o ano com a cota atrasada há mais de um mês — o maior índice registrado desde 2022. Essa taxa de 12% assusta, ainda mais se lembrarmos que, em plena pandemia, o pico registrado foi de 9,5%.

Só pra lembrar ao Incauto, que em plena pandemia foi registrado o pico de 9,5%.

Melhorou em 2026? Não. Se você olhar pro seu prédio agora e contar algumas poucas janelas, entenda que elas estão no mesmo sufoco. Acredito que outros tantos estão lutando, segurando as pontas. E a projeção para o ano que vem é que a coisa continue nesse patamar ingrato, flertando com os mesmos 11%.

Os dados do levantamento realizado pela administradora digital de condomínios uCondo, com base na análise de 7 mil condomínios em todo o Brasil, são dramáticos. O valor médio desse boleto saltou de honestos R$ 413 para mais de R$ 522 em um estalar de dedos. Outro drama real é que as taxas condominiais já estão engolindo até 40% do valor do aluguel.

Aí você me pergunta: “Mas de onde vem essa inflação toda dentro do condomínio?”. Veja bem, a conta é matemática pura. É a folha de pagamento do pessoal da portaria, da limpeza e da zeladoria (que merecem cada centavo), misturada com a conta de luz das áreas comuns que parece vir com bandeira preta vitalícia. Isso sem falar daqueles contratos de manutenção indexados por índices que correm mais rápido que o teto solar do vizinho ricaço do prédio do lado. Tudo subindo bem acima do IPCA oficial, aquele número bonito que o governo adora jogar na televisão para dizer que tá tudo sob controle. A verdade nua e crua é que a conta simplesmente não fecha mais.

Mas vamos combinar uma coisa aqui entre nós, sem passar pano: esse sufoco todo não nasceu ontem por obra do acaso. O que a gente tá assistindo de camarote é o efeito colateral das escolhas econômicas que vêm lá de cima, do atual Executivo Nacional. Não dá para tapar o sol com a peneira.

O endividamento das famílias bate recorde atrás de recorde. E não me venham com o papo de que a culpa é dos juros altos, pois isso não é causa, é consequência. 

O cidadão comum tá escolhendo qual conta vai pagar no mês: ou faz o mercado, paga o cartão, ou quita o condomínio. O país ficou amarrado numa política de juros nas alturas que asfixia qualquer tentativa de respiro. E adivinha quem costuma ficar pro final da fila? Pois é, o síndico.

Essa engrenagem do empobrecimento geral da nossa população tá gerando uma distorção que beira o absurdo. Quando você para pra analisar que quase metade da população desse país precisa de auxílio governamental como o Bolsa Família para conseguir botar comida na mesa, fica claro que a classe média virou a grande pagadora de pato desse modelo. O cobertor ficou curto demais. Esse assistencialismo desenfreado, sem uma contrapartida real e sem visão de cortes nos gastos da máquina pública, cria uma ilusão de ótica que racha o país ao meio. De um lado, uma massa dependente e empobrecida; do outro, quem trabalha de sol a sol vendo o seu poder de compra virar fumaça enquanto banca uma estrutura pesada, corrupta e ineficiente. 

É o legítimo “efeito cascata”: o governo gasta mal, a economia trava, o cidadão perde o fôlego e o boleto do seu prédio aumenta.

A inadimplência é uma praga silenciosa. Quando o vizinho do 402 não paga por falta de condições econômicas, a despesa do prédio não tira férias. A luz do corredor continua acesa e o porteiro continua cumprindo a escala. Quem assume o rojão? Você, eu, o morador do 501 que rala feito um condenado para manter as contas em dia e ainda precisa absorver o buraco de quem não pagou. Isso se transforma em cota extra no mês seguinte (gerando um acréscimo de 15% a 30% para quem paga em dia), no fundo de reserva que some do mapa e naquela reforma urgente da fachada que vai ficando para depois.

Pro síndico que tá com a batata assando, um aviso: cuidado. Nada de expor devedor em grupo de WhatsApp ou mural de elevador; isso é cobrança vexatória e o tiro sempre sai pela culatra na Justiça. Tente sempre negociar, separando o devedor de boa-fé daquele caloteiro enrolado tradicional.

Caso a conversa não funcione, o jeito é apelar para os cartórios. Segundo levantamento divulgado pelo Instituto de Estudos de Protesto de Títulos do Brasil (IEPTB), o volume de cobranças formais e protestos de boletos de condomínio disparou bem mais de 500% no país (saltando de R$ 29,5 milhões para R$ 199,4 milhões). A turma perdeu o medo de cobrar desde que o Novo CPC em 2016 entrou em vigor, permitindo a execução extrajudicial direta para acelerar o processo e evitar brigas arrastadas na Justiça. 

Afinal, ninguém quer ver a assembleia geral virar ringue de boxe ou vizinho olhando torto pro outro no elevador. A verdade é clara: enquanto as reformas estruturais de verdade não saem do papel e Brasília continuar jogando contra o bolso de quem produz, a gente vai tentando se virar como pode.

O boleto não quer saber de papo. A bola de neve dos condomínios está estourando
Foto: Gerada por IA