Nenhuma empresa opera completamente sozinha. Por trás de um serviço, de uma aplicação ou de uma operação existem fornecedores, parceiros e outras organizações que ajudam a manter o negócio funcionando.
Essa relação é parte natural da evolução das empresas. Terceirizar determinadas atividades permite ganhar eficiência, acessar conhecimento especializado e acompanhar novas demandas sem necessariamente ampliar a estrutura interna.
O ponto que merece atenção é outro: quanto mais conectada uma organização está a outras empresas, maior é a importância de entender essas relações.
A gestão de terceiros começa justamente por essa visão. Não se trata apenas de avaliar um fornecedor antes de contratá-lo, mas de compreender qual é o seu papel, quais informações ou processos estão envolvidos e como essa relação deve ser acompanhada ao longo do tempo.
Conhecer é diferente de cadastrar
Um cadastro mostra quem são os fornecedores. Uma boa gestão ajuda a entender quais deles realmente importam para a operação.
Essa diferença parece simples, mas muda a forma como a empresa distribui sua atenção.
Um parceiro que participa de uma atividade administrativa não necessariamente exige o mesmo acompanhamento de uma empresa que presta um serviço essencial, acessa informações importantes ou sustenta uma parte relevante da operação.
Por isso, uma das perguntas mais úteis para a gestão de terceiros é: o que aconteceria com o negócio se essa relação deixasse de funcionar amanhã?
A resposta ajuda a estabelecer prioridades.
Não significa tratar todos os fornecedores como um problema ou criar processos mais complexos para cada contratação. Significa reconhecer que diferentes relações têm diferentes níveis de importância e, consequentemente, precisam de diferentes níveis de acompanhamento.
O risco também muda com o tempo
Outro ponto que vem ganhando espaço nas discussões sobre gestão da cadeia de fornecedores é a diferença entre uma avaliação pontual e uma visão contínua.
Uma análise realizada no início de um contrato pode ser bastante útil para a decisão de contratação. Mas o cenário de uma empresa pode mudar depois disso.
Um fornecedor pode passar por uma mudança de estrutura, incorporar novos parceiros, alterar seus serviços ou se tornar mais relevante para a organização. Da mesma forma, a própria empresa pode aumentar sua dependência daquele terceiro ao longo do relacionamento.
É por isso que o acompanhamento precisa acompanhar a realidade do negócio.
A orientação publicada pelo NIST em julho de 2026 reforça justamente essa necessidade de ampliar a análise sobre fornecedores, considerando aspectos como sua origem, capacidade de continuidade, práticas de segurança e os diferentes níveis da cadeia de fornecimento.
A ideia central é simples: uma decisão sobre um fornecedor não deveria ser baseada apenas no que se sabia sobre ele no momento da contratação.
Até onde vai a nossa cadeia?
Existe ainda uma questão que merece cada vez mais atenção: muitas vezes, o fornecedor direto também depende de outras empresas.
Essa realidade não é nova, mas ficou mais relevante à medida que as operações se tornaram mais digitais e interdependentes.
A CISA recomenda que as organizações procurem compreender não apenas seus fornecedores diretos, mas também as relações que podem ser importantes para a continuidade de seus serviços.
Isso não significa que uma empresa precise conhecer detalhadamente todos os fornecedores de todos os seus parceiros.
O mais importante é identificar as dependências que realmente podem influenciar o negócio.
Essa visão também ajuda a responder perguntas práticas: existe uma alternativa caso esse serviço fique indisponível? Há concentração excessiva em um único fornecedor? Quais relações são realmente críticas? Quem precisa ser envolvido quando alguma mudança acontece?
São perguntas de gestão, antes de serem perguntas de tecnologia.
Quando segurança entra na decisão
Outro movimento importante é aproximar a gestão de terceiros das decisões de compras, contratos, continuidade e operação.
Durante muito tempo, avaliações de fornecedores poderiam ser percebidas como uma etapa específica da área de segurança. Hoje, faz mais sentido enxergá-las como parte de uma decisão maior sobre como a empresa escolhe, acompanha e mantém suas relações estratégicas.
A própria CISA recomenda incorporar questões relacionadas aos fornecedores ao planejamento geral de gestão de riscos e às decisões da organização.
Essa integração pode tornar o processo mais simples.
Em vez de perguntar apenas se determinado fornecedor atende a uma lista de requisitos, a empresa passa a buscar uma resposta mais útil: essa relação é adequada ao que precisamos, ao nível de importância que ela possui e ao risco que estamos dispostos a administrar?
Essa mudança de perspectiva aproxima segurança do negócio e ajuda diferentes áreas a tomarem decisões com mais contexto.
Valor no longo prazo
A gestão de terceiros não precisa ser vista como uma forma de dificultar relações comerciais. Quando bem estruturada, ela pode ajudar a empresa a conhecer melhor o próprio ecossistema e tomar decisões com mais tranquilidade.
O objetivo não é eliminar todas as incertezas. Toda relação empresarial envolve algum nível de dependência e risco.
O que muda é a capacidade de reconhecer essas dependências, estabelecer prioridades e acompanhar aquilo que realmente pode afetar a operação.
Em um ambiente cada vez mais conectado, conhecer os próprios terceiros passa a ser uma extensão do conhecimento que a empresa tem sobre si mesma.
No longo prazo, essa visão pode contribuir para relações mais transparentes, decisões mais bem fundamentadas e uma operação mais preparada para mudanças. Porque administrar riscos de terceiros não significa olhar para fora da empresa com desconfiança. Significa entender melhor o ecossistema do qual fazemos parte.
*Renato Batista é fundador e CEO da Netglobe Cybersecurity, empresa de cibersegurança voltada à proteção digital, segurança da informação e prevenção contra ameaças cibernéticas.
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
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