O brasileiro nunca esteve tão ocupado, e raramente esteve tão instável. Os dados mais recentes do mercado de trabalho, divulgados pelo IBGE mostram um número que, isoladamente, parece motivo de comemoração: o desemprego caiu para 5,1%. Mas basta observar o outro lado do balcão, o do Ministério do Trabalho, para perceber que há algo fora do lugar. Mesmo com mais gente trabalhando, os pedidos de seguro-desemprego continuam aumentando.
Estamos vivendo a era da porta giratória. O emprego existe, mas dura pouco. A queda da desocupação é real, porém o tempo médio de permanência na vaga diminuiu. O mercado passou por uma transformação silenciosa: empresas dispensam funcionários mais antigos — que imediatamente acessam o seguro-desemprego, e recompõem a operação com contratos temporários, terceirizados ou vínculos mais frágeis e baratos.
É aqui que a estatística engana. A massa de rendimento real atingiu o recorde de R$ 320 bilhões, impulsionada por 103 milhões de pessoas ocupadas. Mas esse avanço não reflete salários mais altos. Reflete mais gente ganhando pouco e trocando de crachá com frequência. A “uberização” deixou de ser exceção e passou a fazer parte da rotina, inclusive sob o guarda-chuva da CLT.
Há um efeito colateral ainda menos visível, e bem mais caro. Nos últimos 12 meses, os gastos com seguro-desemprego saltaram de cerca de R$ 47 bilhões para algo próximo de R$ 57 bilhões, mesmo com a taxa de desemprego em queda. Ao mesmo tempo, cresce a informalidade e a fragilidade dos vínculos, reduzindo a base de contribuição previdenciária. O resultado é um descompasso perigoso: o país exibe ocupação elevada, mas sustenta uma arrecadação cada vez mais estreita, abrindo um rombo silencioso na estrutura de financiamento do INSS.
Escala 6×1 deve agravar cenário do mercado de trabalho
Esse quadro tende a se agravar caso avancem mudanças que elevem ainda mais o custo do emprego formal, como a revisão da escala 6×1. Em um mercado já pressionado, o efeito prático não seria mais estabilidade, mas menos contratações formais, mais terceirização e avanço da informalidade. O risco é empurrar ainda mais trabalhadores para fora do sistema contributivo, ampliando a pressão sobre o seguro-desemprego e comprometendo a sustentabilidade da proteção social no médio prazo.
Essa dinâmica também encontra eco no agronegócio. O setor que hoje sustenta boa parte do PIB opera com alta tecnologia e demandas pontuais de mão de obra. Contrata-se no pico da safra, na logística, na manutenção especializada; encerrado o ciclo, o vínculo se desfaz. O agro segue eficiente e competitivo, mas a lógica moderna de contratação também alimenta a rotatividade, e, por consequência, a pressão sobre os mecanismos de proteção social.
No fim das contas, o desemprego baixo é uma vitória estatística que esconde uma fragilidade estrutural. Ao longo dos anos acompanhando o mercado de trabalho de perto, ficou claro que o problema já não é apenas gerar vagas, mas sustentar vínculos. O seguro-desemprego, pensado como rede de proteção emergencial, passa a funcionar como amortecedor permanente de um sistema que evita o custo da permanência. O Brasil trabalha mais. O trabalhador, porém, sente cada vez menos segurança na cadeira onde se senta.
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