A sequência negativa reflete eleição, saída de estrangeiros e juros globais. Para o investidor, agir pelo medo pode custar mais do que esperar.
Depois de 11 pregões consecutivos de queda, a pergunta passou a ser inevitável: é hora de comprar ações, vender o que ainda está na carteira ou simplesmente ficar fora da Bolsa?
Na minha avaliação, não existe motivo para fugir do mercado, mas também não há razão para imaginar que qualquer queda virou oportunidade. O momento exige algo que costuma faltar quando o medo aumenta: critério.
Até o fechamento de 18 de agosto, o Ibovespa havia perdido aproximadamente 7% nessa sequência, terminando perto dos 166 mil pontos. Em relação à máxima alcançada em abril, a correção se aproximava de 16%. É uma perda importante, mas não estamos diante de um colapso.
A Bolsa não está quebrando. Está recalculando o preço dos riscos.
O mercado não vota; faz contas
A campanha eleitoral começou oficialmente, e o mercado entrou definitivamente no chamado “modo eleição”. Pesquisas, discursos e alianças ganharão cada vez mais influência sobre o comportamento dos ativos.
Mas o investidor não deveria confundir preferência política com estratégia financeira. O mercado não está interessado apenas em quem vencerá a eleição. Ele procura saber o que o vencedor fará com as despesas públicas, a dívida, os impostos e a credibilidade fiscal do país.
Até agora, nenhum dos principais candidatos apresentou um projeto estrutural capaz de demonstrar, com clareza, como o Brasil poderá estabilizar sua dívida e criar condições permanentes para a redução dos juros.
Essa ausência de respostas aumenta o prêmio de risco. E esse prêmio aparece em diferentes lugares: no dólar mais alto, na curva de juros pressionada e no preço menor das ações.
O problema não é simplesmente a eleição. É chegar à eleição sem saber qual será a política econômica do próximo governo.
O estrangeiro mudou de posição
A retirada de investidores estrangeiros da B3 superou R$ 15 bilhões em agosto. O número é expressivo porque o capital externo responde por uma parcela muito relevante dos negócios realizados na Bolsa brasileira.
Quando o estrangeiro entra, o Ibovespa sobe rapidamente. Quando ele reduz sua exposição, o movimento contrário também ganha força.
Mas é importante colocar essa saída em perspectiva. Até meados de abril, os estrangeiros haviam investido mais de R$ 67 bilhões na Bolsa. Parte da queda atual representa uma desmontagem de posições e uma realização dos lucros acumulados no começo do ano.
Não me parece correto, pelo menos por enquanto, afirmar que o investidor estrangeiro desistiu definitivamente do Brasil. O que vejo é uma mudança da euforia para a cautela.
Se aparecer uma proposta econômica consistente, parte desse dinheiro pode retornar com a mesma velocidade com que saiu. Se o cenário fiscal piorar, a retirada poderá se aprofundar.
O risco também vem de fora
Seria um erro explicar toda a queda da Bolsa pelas eleições brasileiras. O ambiente internacional tornou-se mais difícil.
Nos Estados Unidos, o título do Tesouro de dez anos oferece rendimento próximo de 4,7%, enquanto o de 30 anos supera 5,3%, o maior patamar desde 2007.
Isso muda a lógica dos investimentos no mundo inteiro.
Quando um título considerado seguro paga mais de 5% ao ano em dólar, uma ação brasileira precisa oferecer uma perspectiva de retorno muito maior para justificar o risco. Caso contrário, o dinheiro procura proteção no mercado americano.
Essa elevação dos juros longos reflete a preocupação com a inflação, os déficits públicos, o preço do petróleo e a necessidade crescente de financiamento dos governos.
Portanto, mesmo que a Selic brasileira recue um pouco, a Bolsa poderá continuar pressionada se os juros internacionais permanecerem elevados.
O peso da dívida mundial
A dívida global chegou a aproximadamente US$ 353 trilhões, segundo o Instituto de Finanças Internacionais. Esse valor equivale a cerca de 305% do PIB mundial e inclui compromissos de governos, empresas, famílias e instituições financeiras.
O tamanho da dívida, sozinho, não anuncia uma crise. A preocupação está no custo para carregá-la e financiá-la.
A OCDE estima que governos e empresas precisarão captar US$ 29 trilhões no mercado de títulos em 2026. Uma parcela expressiva desses recursos será utilizada apenas para pagar ou renovar dívidas anteriores.
Enquanto os juros estavam próximos de zero, esse processo era relativamente administrável. Com juros mais altos, a conta muda. Empresas endividadas perdem rentabilidade, governos gastam mais com juros e o crédito fica mais caro para as famílias.
É esse ambiente que torna o mercado mais sensível a qualquer surpresa.
No Brasil, a renda fixa continua forte
A Selic está em 14% ao ano, e a projeção do mercado aponta para 13,75% no encerramento de 2026. Na prática, espera-se apenas mais uma pequena redução.
A renda fixa, portanto, continuará sendo uma concorrente poderosa da Bolsa.
Para retirar dinheiro de uma aplicação segura e comprar ações, o investidor precisa encontrar empresas que ofereçam retorno suficiente para compensar os riscos políticos, fiscais e empresariais.
Por isso, não basta dizer que a Bolsa está barata. Algumas ações realmente apresentam preços interessantes. Outras apenas refletem empresas endividadas, margens apertadas e negócios que não conseguem gerar caixa.
Preço baixo não é sinônimo de oportunidade. Muitas vezes, é apenas o retrato de um problema.
O que eu faria neste momento?
Para o investidor que não é especialista, não recomendaria entrar com todo o dinheiro agora. Também não venderia indiscriminadamente uma carteira formada por boas empresas apenas porque o índice caiu durante 11 pregões.
Quem pretende investir deve dividir os recursos em várias etapas. Assim, poderá aproveitar novas quedas sem depender da tentativa de acertar exatamente o fundo do mercado.
Eu daria preferência a empresas pouco endividadas, com geração consistente de caixa, boa governança, receitas previsíveis e capacidade de atravessar diferentes governos e ciclos econômicos.
Exportadoras, companhias com receitas em dólar, infraestrutura, energia, seguros e alguns negócios defensivos tendem a enfrentar melhor períodos de instabilidade.
Em sentido contrário, teria bastante cautela com empresas excessivamente endividadas, varejistas dependentes de crédito, companhias com caixa negativo e ações compradas apenas pela expectativa de uma queda rápida da Selic. Estatais também exigem atenção redobrada durante uma eleição, porque o risco político pode se sobrepor aos resultados da empresa.
Do ponto de vista técnico, a perda da região dos 167 mil pontos mantém o sinal de curto prazo negativo. Os próximos suportes aparecem entre 165 mil e 160 mil pontos. Uma recuperação mais consistente exigiria o retorno do Ibovespa para a faixa entre 173 mil e 175 mil pontos.
Isso não significa que o índice necessariamente cairá até os 160 mil pontos, mas mostra que a volatilidade ainda não terminou.
O medo não pode substituir a estratégia
Quem não possui reserva de emergência, precisa do dinheiro no curto prazo ou não consegue suportar novas quedas deve permanecer fora da Bolsa.
Quem já possui uma carteira equilibrada e pensa no longo prazo não deveria transformar uma oscilação eleitoral em prejuízo definitivo.
A venda faz sentido quando a empresa perdeu seus fundamentos, quando a dívida ficou excessiva ou quando o investidor percebeu que assumiu um risco maior do que poderia suportar. Vender apenas porque os preços caíram costuma ser uma decisão tomada pelo medo, não pela análise.
Se me pedissem uma única palavra para definir a estratégia neste momento, eu não escolheria “comprar”, “vender” ou “esperar”. Escolhi “selecionar”.
Selecionar boas empresas. Selecionar o tamanho adequado da posição. Selecionar o momento de cada entrada.
A Bolsa não se transformou em oportunidade apenas porque caiu 11 vezes. A verdadeira oportunidade aparece quando empresas sólidas passam a ser negociadas por preços inferiores à sua capacidade de gerar lucros e atravessar períodos de incerteza.
Neste momento, eu resumiria a estratégia da seguinte forma: comprar qualidade aos poucos, vender fragilidade e preservar liquidez.
Em um mercado dominado pela eleição, pelos juros e pela dívida, paciência também é uma posição.
*Coluna escrita por, Miguel Daoud, comentarista de economia e política na BM&C News. Administrador de Empresas, com especialização autodidata em Economia e Política, construiu uma trajetória consolidada no mercado financeiro e no agronegócio brasileiro.
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