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A reprecificação do risco e o fluxo de capitais: o balanço de 2025 e as travas para 2026

Indústria de fundos e B3 refletem o impacto da curva de juros a 14,9%; novo ano combina desafio fiscal, eleições e tensão geopolítica

Marco Saravalle Por Marco Saravalle
07/01/2026
Em Marco Saravalle

O encerramento de 2025 consolidou um período de ajuste significativo nas expectativas dos agentes econômicos e na indústria de fundos de investimento no Brasil. O exercício foi marcado pela persistência de taxas de juros em patamares elevados e pelo aumento das incertezas fiscais, vetores que induziram uma postura defensiva na alocação de recursos em um mercado que movimenta cerca de R$ 10 trilhões. O mês de dezembro, contudo, apresentou movimentos atípicos, especialmente na renda fixa e no fluxo de investidores locais na bolsa.

Dinâmica da indústria de fundos

O levantamento realizado pela DataBay aponta para uma retração na exposição a risco ao longo do ano. A classe de Ações encerrou 2025 com resgates líquidos acumulados de R$ 43,9 bilhões.

Os fundos Multimercados apresentaram desempenho negativo em termos de captação, acumulando saídas de R$ 61,8 bilhões. A volatilidade dos fluxos foi uma constante: após registrar captações positivas em agosto e outubro, a categoria voltou a sofrer resgates nos últimos dois meses do ano.

A Renda Fixa, por sua vez, protagonizou o movimento mais relevante no fechamento do ano. Após liderar a captação durante o primeiro semestre, a categoria registrou uma reversão de fluxo acentuada no último bimestre. Em dezembro, os resgates somaram R$ 62,1 bilhões, um volume substancial que se adicionou às saídas de novembro. Apesar desse ajuste no final do período, a classe encerrou 2025 com saldo positivo de R$ 65,8 bilhões, mantendo-se como o principal destino de recursos no acumulado anual.

Fluxo na B3: Divergência entre perfis

A análise dos fluxos na B3 revela comportamentos distintos entre os participantes. O investidor estrangeiro adotou postura de saída no encerramento do ano, retirando R$ 1,8 bilhão em dezembro, movimento coerente com a reprecificação dos ativos de risco globais e as idiossincrasias do cenário local.

Em contrapartida, houve uma recomposição de carteira por parte dos investidores domésticos. Os Institucionais, que mantiveram posição vendedora durante a maior parte do ano, registraram entrada de R$ 2,8 bilhões em dezembro. Simultaneamente, as Pessoas Físicas aportaram R$ 3,8 bilhões no mesmo mês, o maior volume mensal do ano para este segmento, sugerindo um movimento de alocação tática diante dos níveis de preço dos ativos.

Abertura da curva de juros

O comportamento dos fluxos guarda estreita correlação com a estrutura a termo da taxa de juros. Dados da plataforma DataBay indicam uma reprecificação expressiva das expectativas ao longo de 2025. Em dezembro de 2024, a projeção de mercado para a taxa de juros em janeiro de 2026 situava-se próxima a 11,50%. Ao final de 2025, a precificação de mercado ajustou-se para 14,90%.

Este deslocamento de aproximadamente 350 pontos-base reflete a incorporação de prêmios de risco decorrentes do cenário fiscal e da resistência inflacionária. A curva de juros, ao inverter-se ou manter inclinação negativa em vértices curtos, sinaliza a percepção de necessidade de manutenção da política monetária restritiva para assegurar a convergência das metas de inflação.

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Perspectivas para 2026

A transição para 2026 revela uma dicotomia clara no cenário de investimentos. O fluxo de capital estrangeiro consistente ao longo de 2025 obedeceu a uma lógica global de rotação para mercados emergentes, impulsionada pelo ciclo de afrouxamento monetário nos Estados Unidos, encontrando no Brasil ativos com múltiplos descontados. No entanto, essa atratividade de preço agora colide com a rigidez das taxas de juros domésticas e a persistência dos prêmios de risco na curva a termo.

O ambiente torna-se mais complexo com a irrupção de um vetor de incerteza não linear: a intervenção na Venezuela e a captura de Nicolás Maduro. Esse evento geopolítico redefine o cálculo de estabilidade regional justamente quando o Brasil adentra seu ciclo eleitoral presidencial, período historicamente sensível para a gestão das contas públicas e propenso à volatilidade nos preços dos ativos.

Diante disso, a dinâmica de mercado dependerá da capacidade dos preços atuais absorverem tanto o ruído externo quanto as pressões fiscais do ano eleitoral. A manutenção do custo de capital em patamares restritivos sugere que, apesar do cenário externo favorável a emergentes, a cautela e a proteção de patrimônio devem prevalecer sobre a tomada de risco excessiva no curto prazo.

Colaborou nesse artigo: Guilherme Carlini Carter é economista e Mestre pela FGV-EESP. Professor de Finanças na FGV e coordenador acadêmico na FBNF, atua como Managing Director da DataBay, fintech especializada em inteligência de dados para o mercado de capitais.

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