Pular para o conteúdo
Mercados
IBOV 206.220 +0.94% USD/BRL R$ 5,02 +0.02% EUR/BRL R$ 5,63 +0.01% BTC/BRL R$ 412.241 -1.69% PETR4 R$ 55,48 +2.12% VALE3 R$ 67,64 -1.61% WEGE3 R$ 51,77 +0.98% ITUB4 R$ 49,35 +0.49% BBDC4 R$ 21,51 -2.05% BBAS3 R$ 24,26 +0.33% BPAC11 R$ 77,47 +1.08% ABEV3 R$ 16,15 +1.13% CYRE3 R$ 33,10 +0.30%
Nelogica
Fabrizio Gueratto

Um país que vota para derrotar o adversário e não no melhor candidato, não pode dar certo!

Eu olho para a eleição presidencial de 2026 e vejo um dado que me incomoda mais do que qualquer número isolado de intenção de voto. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados com 42% em uma eventual disputa de segundo turno, segundo a Quaest divulgada nesta segunda feira. Ao mesmo tempo, são rejeitados por mais da metade do eleitorado: 55% dizem que não votariam em Lula e 56% afirmam o mesmo sobre Flávio.

Não interpreto esses números como prova de que seus próprios campos não os apoiam. As pesquisas mostram bases bastante fiéis tanto à esquerda quanto à direita. O que me chama a atenção é outra coisa. Chegamos novamente a uma eleição na qual dois candidatos capazes de reunir praticamente metade dos votos também provocam rejeição em mais da metade do país. Para mim, essa contradição ajuda a explicar uma característica cada vez mais presente na política brasileira. Muita gente não entra na disputa pensando apenas em quem deseja eleger, mas também, e às vezes principalmente, em quem precisa impedir de chegar ao poder.

E não acredito que isso tenha começado agora. Em 2014, Dilma Rousseff e Aécio Neves protagonizaram uma das eleições mais apertadas da nossa história recente. Em 2018, a disputa entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad aconteceu em um ambiente marcado tanto pela força do antipetismo quanto pela rejeição a Bolsonaro. Em 2022, Lula e Bolsonaro levaram essa divisão ainda mais longe, terminando o segundo turno separados por apenas 1,8 ponto percentual. Agora mudamos um dos personagens, mas continuamos diante de dois polos com rejeições enormes.

Não estou dizendo que todas essas eleições foram iguais, muito menos que todo brasileiro votou apenas contra alguém. Estou dizendo que vejo uma repetição preocupante. Eleição após eleição, a rejeição ao outro campo continua tendo peso relevante na construção do voto. O adversário deixa de ser apenas uma alternativa que considero pior e passa a ser alguém cuja vitória preciso impedir.

É justamente aí que, na minha visão, mora o problema. Quando a principal qualidade de um candidato passa a ser a capacidade de derrotar aquele que eu rejeito, diminuo a importância das perguntas que deveriam ser feitas antes de entregar a alguém a Presidência da República. Qual é o projeto econômico? O que pretende fazer com educação, saúde, segurança e contas públicas? Quem estará ao seu lado? Que resultados já entregou? Como pretende governar um país profundamente dividido?

Nada disso significa que rejeição seja ilegítima. Tenho todo o direito de olhar para um candidato e concluir que não quero vê lo governando. O perigo aparece quando o “não” ao adversário se torna tão poderoso que já não preciso de um “sim” igualmente convincente para aquele em quem deposito meu voto. Nesse momento, deixo de exigir que meu candidato me conquiste e começo a aceitar que simplesmente me proteja do outro.

É por isso que considero a fotografia de 2026 tão reveladora. A Quaest já encontrou uma divisão quase perfeita até no medo. Em levantamento de setembro, 43% disseram temer mais a volta da família Bolsonaro ao poder e outros 43%, a continuidade de Lula. O Brasil parece preso a uma dinâmica na qual cada campo encontra no outro uma das maiores razões para permanecer unido.

E eu não acredito que uma democracia consiga melhorar indefinidamente escolhendo seus presidentes dessa maneira. Não existe um “melhor candidato” universal, porque cada eleitor tem razões diferentes para votar. Mas deveria existir algo maior do que simplesmente derrotar alguém. Enquanto nossas eleições forem vividas principalmente como uma batalha para impedir o outro lado de chegar ao poder, continuaremos sabendo com enorme clareza quem não queremos e discutindo muito menos quem queremos, por quais razões e para fazer exatamente o quê.

Derrotar o adversário resolve uma eleição. Não resolve um país.

*Coluna escrita por Fabrizio Gueratto, especialista em investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. Foi sócio do Banco Modal, é professor de MBA em Finanças, autor do livro “De Endividado a Bilionário”, fundador da Gueratto Press e criador do Canal 1Bilhão, que soma quase 21 milhões de visualizações no YouTube.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

*Leia mais colunas do autor clicando aqui

Um país que vota para derrotar o adversário e não no melhor candidato, não pode dar certo!