A guerra no Oriente Médio, com o bloqueio do Estreito de Ormuz, catapultou o preço do barril de Brent acima dos US$ 100 nesta semana de março de 2026. No Brasil, o diesel já registra alta de 11%, enquanto projeções do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) para 2026 avançam para 3,7% a 4,17%, com a Selic em quase 15%. Como grande exportador de petróleo, celebramos R$ 17 bilhões extras em arrecadação, mas a fragilidade é evidente: sem uma reserva estratégica formal, dependemos de estoques privados da Petrobras, que mal cobrem 20 a 40 dias de consumo operacional.
É imperativo mudar essa realidade agora. Países como China, Japão e Estados Unidos construíram há décadas arsenais energéticos para crises exatamente como essa. A China lidera em volume absoluto, com barris em reservas estratégicas e comerciais capazes de atenderem até 115 dias de consumo doméstico. Esse colchão permite absorver choques sem pânico imediato, mesmo como maior importador global.
O Japão, quase sem produção própria, armazena cerca de 470 milhões de barris, suficientes para impressionantes 260 dias, e liberou recentemente 80 milhões para conter preços internos.
Já os Estados Unidos mantêm 415 milhões de barris na SPR (Strategic Petroleum Reserve), cobrindo 200 dias de consumo, sempre coordenados pela AIE (Agência Internacional de Energia), que agora solta um recorde de 400 milhões de barris em 90 dias entre seus 32 membros.
Essas reservas não são mero luxo, representam soberania pura. Elas amortecem especulações de curto prazo, distribuindo impactos e evitando repasses violentos aos consumidores. Na Alemanha, 177 milhões de barris garantem até 80 dias; na França e Itália, estoques semelhantes protegem economias dependentes de importações. A AIE exige no mínimo 90 dias de seus membros, uma rede de segurança que evitou colapsos maiores em 2022, durante a invasão russa à Ucrânia.
O Brasil, paradoxalmente um gigante produtor, age como importador relutante de derivados refinados. Sem adesão à AIE ou um fundo soberano dedicado, ficamos expostos. A Petrobras, após abandonar o PPI (Paridade de Importação) em 2023, gerencia bem a distribuição de choques de preço, mas estoques operacionais não substituem reservas estatais coordenadas. Cada US$ 15 a mais no barril pode adicionar 0,6 ponto percentual ao IPCA, e um risco que dura além de 40 dias se torna estrutural para o transporte rodoviário, responsável por 80% das cargas, agronegócio e aviação.
Vejo nisso uma oportunidade desperdiçada. Nações como a Noruega transformaram receitas petrolíferas em fundos soberanos trilionários, investindo em reservas e diversificação. O Brasil poderia fazer o mesmo: alocar parte dos R$ 17 bilhões extras para uma SPR nacional, aderir à AIE e priorizar estoques de derivados críticos. Isso blindaria nossa economia de choques geopolíticos, atrairia investimentos estrangeiros e fortaleceria o comércio exterior em tempos de negociações Trump-Lula ou disputas por terras raras.
Ignorar essa lição é brincar com o fogo. O mercado financeiro reage em minutos, já a economia real leva semanas. Com o Brent testando US$ 150 e alertas de recessão global, precisamos de ação urgente. Um fundo soberano seria o hedge ideal para nossa resiliência exportadora, garantindo não só estabilidade, mas liderança energética no Sul Global.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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