O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano. Isoladamente, o corte parece pequeno, prudente e até previsível. Mas decisões econômicas não acontecem isoladamente. Poucas horas antes, o Federal Reserve havia feito exatamente o movimento contrário: aumentou os juros americanos em 0,25 ponto, para o intervalo entre 3,75% e 4%, e sinalizou que poderá elevá-los novamente. Enquanto os Estados Unidos apertam o freio, o Brasil começa a aliviar o pé.
Isso não significa necessariamente que o Copom tenha cometido um erro. A economia brasileira apresenta sinais de desaceleração, o consumo perdeu algum fôlego e a inflação acumulada recuou. Depois de meses de política monetária extremamente restritiva, existe uma justificativa técnica para continuar reduzindo a Selic de maneira gradual. O problema não está nos 0,25 ponto. Está no ambiente em que o corte foi realizado.
Quando os juros americanos sobem, os títulos do Tesouro dos Estados Unidos se tornam ainda mais atraentes. O investidor passa a receber uma remuneração maior no ativo considerado mais seguro do mundo. Para continuar atraindo capital, o Brasil precisa oferecer um prêmio elevado, não apenas porque é um país emergente, mas porque continua convivendo com dúvidas fiscais, instabilidade política e baixa previsibilidade.
O diferencial entre os juros brasileiros e americanos ainda é enorme. Não existe, portanto, razão para prever uma fuga imediata de capitais ou uma explosão automática do dólar. Mas reduzir esse diferencial no mesmo dia em que o Fed o pressiona na direção contrária é uma decisão que exige credibilidade. E credibilidade é justamente o ativo que o Brasil nunca deveria considerar abundante.
Se o real perder valor, o corte poderá produzir o efeito inverso ao pretendido. O dólar mais caro pressiona combustíveis, alimentos, medicamentos, componentes industriais e serviços. A inflação importada reaparece, as expectativas pioram e o Banco Central corre o risco de ter de interromper os cortes, ou, no pior cenário, elevar novamente a Selic. Seria a conhecida especialidade brasileira de economizar no primeiro ato e pagar mais caro no terceiro.
Também convém moderar as expectativas sobre os benefícios imediatos da decisão. A redução para 13,75% não transformará o crédito brasileiro da noite para o dia. Famílias continuarão pagando taxas quase indecentes no cartão e no cheque especial. Pequenas empresas continuarão encontrando financiamentos incompatíveis com suas margens. O efeito da Selic sobre o crédito é lento, parcial e frequentemente diluído pelos spreads bancários.
O maior beneficiário imediato será o próprio governo, que poderá reduzir um pouco o custo de carregamento da dívida pública. Isso ajuda, mas não resolve. Juros menores diminuem a conta; não corrigem a origem do desequilíbrio fiscal.
Esse é o ponto central. O Banco Central consegue criar algum espaço monetário, mas não pode fabricar responsabilidade fiscal. Se o governo aproveitar a redução dos juros para ampliar gastos, criar subsídios ou distribuir novas promessas eleitorais, o corte terá vida curta. A política monetária aliviará enquanto a política fiscal continuará acelerando. Um pé no freio e outro no acelerador raramente produzem uma viagem confortável.
Ao cortar a Selic no mesmo dia em que o Fed aumentou os juros, o Copom fez uma aposta calculada: a desaceleração da economia e da inflação domésticas será suficiente para compensar um cenário internacional mais hostil. É uma aposta defensável, mas não gratuita.
O corte não representa irresponsabilidade. Representa, porém, o limite entre prudência e complacência. Novas reduções dependerão menos do desejo por crescimento e mais do comportamento do câmbio, da inflação e das contas públicas.
O Copom abriu a porta para juros menores. O Fed, simultaneamente, estreitou a passagem. Agora caberá ao governo decidir se ajuda o Brasil a atravessá-la, ou se insiste em passar carregando mais despesas nas costas.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
*Leia mais colunas do autor aqui.
