Thomas Hobbes foi um filósofo inglês do século XVII que buscou responder a uma pergunta essencial para a política moderna: por que os indivíduos aceitam viver sob um Estado? Sua resposta foi pragmática, não moral. Para Hobbes, sem uma autoridade capaz de impor regras comuns, os homens tendem ao conflito permanente, daí a célebre ideia de que “o homem é o lobo do homem”. O Estado surge para conter o caos, não para aperfeiçoar virtudes.
O Brasil avançou, mas não concluiu esse processo. Vive uma transição imperfeita, instável e seletiva entre o lobo e o cidadão. É nesse terreno ambíguo que a eleição presidencial de 2026 será disputada.
Nesse contexto, a eventual pré-candidatura de Flávio Bolsonaro levanta uma questão estratégica central: é possível vencer prometendo conflito permanente ou será necessário oferecer conclusão institucional? A experiência recente sugere que o eleitor brasileiro tolera a retórica de ruptura apenas até o ponto em que ela começa a gerar insegurança e fadiga social. Foi esse limite que comprometeu a reeleição de Jair Bolsonaro, cuja postura constantemente combativa reforçou a percepção de um país em tensão contínua, quando parte relevante da sociedade buscava previsibilidade.
Se o Brasil é uma evolução hobbesiana inacabada, a campanha vencedora em 2026 tende a ser aquela que prometer, de forma crível, concluir esse processo. Menos estética de confronto e mais compromisso com ordem funcional. Menos polarização performática e mais autoridade institucional eficaz. Isso não implica abandonar valores conservadores ou liberais, mas reposicioná-los como instrumentos de estabilidade, e não de conflito permanente.
Para Flávio Bolsonaro, o desafio estratégico estaria em desprender-se da herança política do pai sem negá-la. Não se trata de ruptura simbólica, mas de maturação política. Jair Bolsonaro cumpriu o papel de catalisador do sentimento anti-sistema, dando voz a uma insatisfação real com instituições percebidas como distantes e ineficientes. Esse papel teve função histórica. O passo seguinte, porém, exige outro perfil: o de quem transforma indignação em institucionalidade.
Sob a lente hobbesiana, isso significa oferecer ao eleitor algo simples e poderoso: funcionamento. O eleitor brasileiro não pede um Estado ausente nem um Estado em guerra permanente consigo mesmo. Pede segurança que dispense rotinas defensivas privadas. Pede justiça previsível. Pede regras claras. Pede serviços públicos minimamente compatíveis com a carga tributária que paga. Em síntese: menos lobo solto, mais cidadão protegido.
Comunicar isso em campanha exige mudança real de linguagem. A narrativa do “nós contra eles” precisa ceder espaço ao “todos sob a mesma regra”. A exceção constante precisa dar lugar à norma confiável. A política entendida como confronto precisa ser substituída pela política como organização da vida coletiva. Reconhecer conflitos reais, criminalidade, desigualdade, ineficiência estatal, sem transformá-los em combustível permanente de instabilidade institucional.
Essa mudança não seria cosmética, mas estrutural. O Brasil de 2026 estará cansado de improviso, volatilidade e sobressaltos institucionais. O eleitor médio, produtivo, urbano, pagador de impostos, tende a premiar quem oferecer ordem sem autoritarismo, firmeza sem radicalismo e autoridade sem caos. É exatamente o ponto de equilíbrio que Hobbes descreveu como condição mínima para a vida civil.
Se Flávio Bolsonaro quiser ser competitivo, precisará ocupar esse espaço. Não como simples continuidade da figura paterna, mas como síntese de uma etapa seguinte: aquela em que o país deixa de reagir emocionalmente aos seus próprios impasses e passa a organizar soluções duráveis. A eleição de 2026 não será apenas um embate ideológico. Será um plebiscito silencioso sobre quem convence o Brasil de que o contrato social pode, enfim, funcionar.
No fim, a pergunta hobbesiana permanece intacta: quem é capaz de conter o lobo sem sufocar o cidadão? A resposta a essa pergunta, mais do que nomes, slogans ou alianças, decidirá o próximo presidente da República.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista e empresário no Brasil, CEO da Energy Group e vice-presidente de finanças da Camara Italiana do Comércio de São Paulo – Italcam
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