Durante décadas, possuir um automóvel foi símbolo de sucesso. Comprava-se o carro, colocava-se na garagem e contemplava-se aquele patrimônio com satisfação. Patrimônio? Talvez seja uma palavra um pouco generosa para definir um bem que perde valor, paga imposto, exige seguro, manutenção, pneus e documentação, consome capital e, no final, ainda obriga o proprietário a descobrir quanto o mercado realmente acha que ele vale.
O mundo começou a fazer uma conta diferente. A transformação mais interessante da mobilidade talvez não esteja apenas nos carros elétricos, autônomos ou compartilhados. Está numa mudança aparentemente banal: trocar o verbo possuir pelo verbo utilizar. E isso está transformando profundamente o mercado de locação de longo prazo.
Porque a locadora moderna já não entrega simplesmente um automóvel. Ela entrega mobilidade como serviço. Nos modelos mais sofisticados de full rent, a empresa ou o profissional escolhe o veículo e recebe junto um pacote que pode incluir documentação, IPVA, seguro, manutenção preventiva e corretiva, pneus, assistência 24 horas, carro reserva, gestão de multas, telemetria, relatórios, controle da frota e administração da venda futura do veículo.
Em outras palavras, o usuário fica com a parte interessante, que é utilizar o carro. A locadora fica com a burocracia, o risco operacional e a maravilhosa experiência de descobrir quanto vale um automóvel usado quatro anos depois. Parece uma divisão de trabalho bastante razoável.
Para as empresas, existe ainda uma questão financeira fundamental. Comprar uma frota significa imobilizar capital em um ativo que não pertence ao core business. Uma empresa deveria usar seu dinheiro para crescer, investir em tecnologia, contratar pessoas, financiar estoques, conquistar clientes e desenvolver novos mercados. Ou pode comprar 30 SUVs e admirar o estacionamento. Cada um escolhe sua estratégia.
É justamente por isso que a terceirização de frotas avançou tanto nas economias desenvolvidas. No Brasil, o movimento ganhou velocidade. Segundo a ABLA, o setor brasileiro de locação encerrou 2025 com uma frota recorde de 1,718 milhão de automóveis e comerciais leves. As locadoras compraram quase 629 mil veículos novos, equivalentes a aproximadamente 24,6% de todos os automóveis e comerciais leves emplacados no país naquele ano. Mais importante: aproximadamente 54% da frota das locadoras brasileiras já está ligada à gestão e terceirização de frotas, contratos de longo prazo e veículos por assinatura.
Ou seja, aquela imagem da locadora como um balcão de aeroporto está ficando velha. A nova locadora é quase uma plataforma financeira, operacional e tecnológica sobre quatro rodas.
Mesmo assim, o Brasil ainda está longe da maturidade observada internacionalmente. Estimativas setoriais colocam a terceirização das frotas privadas brasileiras em algo próximo de 20% a 25%, enquanto mercados mais maduros da Europa e dos Estados Unidos trabalham com participações que podem superar 50%. E talvez justamente aí esteja uma das maiores oportunidades do setor.
As grandes multinacionais entenderam isso primeiro, não por ideologia, mas porque suas matrizes já utilizavam esse modelo no exterior. Depois vieram as grandes empresas brasileiras. Agora o mercado começa a descer a pirâmide: pequenas e médias empresas, escritórios, médicos, advogados, consultores, executivos e profissionais liberais começam a perceber que não precisam comprar um automóvel para ter um automóvel.
E o produto também mudou. O full rent atual pode oferecer contratos flexíveis, diferentes quilometragens, manutenção integrada, seguros, assistência, gestão digital e possibilidade de substituição do veículo ao final do ciclo. Em operações corporativas mais sofisticadas, a locadora pode praticamente assumir toda a administração da mobilidade da empresa. O cliente deixa de comprar ferro e compra disponibilidade. Deixa de administrar patrimônio e compra serviço. Deixa de assumir uma série de riscos imprevisíveis e compra previsibilidade.
Naturalmente, comprar continuará fazendo sentido para determinados usuários. Não existe solução universal. Mas a velha ideia de que “alugar é jogar dinheiro fora” merece pelo menos uma aposentadoria digna. Porque comprar também significa gastar dinheiro. A diferença é que fazemos isso em várias parcelas invisíveis: entrada, financiamento ou capital próprio, seguro, IPVA, manutenção, pneus, depreciação e custo de oportunidade. Depois somamos apenas algumas delas e concluímos, satisfeitos, que o carro próprio saiu barato. É uma matemática bastante criativa.
O que está acontecendo na mobilidade é parecido com o que já aconteceu em inúmeros outros setores da economia. Empresas deixaram de comprar servidores para contratar computação em nuvem. Software deixou de ser comprado em uma caixa e virou assinatura. Equipamentos passaram da propriedade para o pagamento pelo uso. Por que o automóvel deveria escapar dessa transformação?
Talvez, daqui a alguns anos, a pergunta não seja mais “qual carro você tem?”, mas simplesmente “qual carro você está usando agora?”. A primeira remete a patrimônio. A segunda é sobre mobilidade. E essa pequena diferença pode mudar uma indústria inteira.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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