Você pode não ligar pra política, mas a política liga pro seu bolso. A cada dois anos o país para pra discutir quem vai governar, e boa parte do investidor trata isso como assunto de torcida, algo que se resolve na urna e não na carteira. É um erro caro. Uma eleição presidencial é, antes de tudo, um evento patrimonial. O que está em jogo não é apenas quem ganha, e sim o preço do dólar, o rumo dos juros, o risco que o mercado atribui ao Brasil e, no fim da conta, o poder de compra do seu dinheiro.
Basta olhar para trás. Nos meses em torno das eleições de 2018 e de 2022, o dólar, a bolsa e os juros futuros se moveram muito antes de qualquer posse, reagindo a pesquisas, a falas de campanha e à leitura de risco fiscal. Quem esperou o resultado para decidir o que fazer com o patrimônio já tinha perdido a parte mais importante do movimento. O mercado não espera a apuração. Ele precifica a expectativa.
Você pode não ligar pra política, mas a política liga pro seu bolso. Em ano de eleição, o que muda de fato não é só quem vence, é o preço do dólar, o juro e o risco que o mundo atribui ao Brasil.
O pano de fundo torna a conta ainda mais delicada. A dívida pública brasileira supera 80% do PIB, e o país convive com um dos juros reais mais altos do mundo para conseguir se financiar. Some a isso uma verdade que costuma passar despercebida: desde o Plano Real, em 1994, o real perdeu a maior parte do seu poder de compra para a inflação. O dinheiro parado na conta não é neutro. Ele encolhe todos os anos, com ou sem eleição. O que a disputa política faz é acelerar ou frear esse processo, dependendo do que o próximo governo sinalizar sobre gastos, impostos e juros.

Diante disso, a pergunta certa não é “em quem votar para proteger meu dinheiro”. É “como não deixar todo o meu patrimônio depender de uma única moeda e de um único país”. Concentração é risco, mesmo quando não parece. Quem tem cem por cento do que juntou em ativos brasileiros, em reais, está fazendo uma aposta concentrada de que aqui tudo vai dar certo, sempre.
A resposta que o investidor mais experiente costuma dar a isso é a diversificação de moeda e de jurisdição. Parte do patrimônio exposta ao dólar, parte em ativos reais, e uma fatia, para quem entende e aceita o risco, em ativos que não respondem a nenhum governo, como o bitcoin. Vale lembrar o tamanho da volatilidade: no segundo turno de 2022, o bitcoin era negociado perto de US$ 20 mil, caiu com força nos meses seguintes e só depois voltou a subir. É um ativo que pode perder metade do valor em semanas. Não serve para quem precisa do dinheiro no curto prazo, e o tamanho da posição precisa ser proporcional ao estômago de cada carteira.
Diversificar moeda e jurisdição não é apostar contra o Brasil nem torcer por um resultado. É reconhecer que colocar todo o patrimônio numa só moeda e num só país já é, por si, uma decisão de risco.
O ponto deste texto não é dizer onde investir, e sim quando decidir. A pior hora para repensar a estrutura do seu patrimônio é no susto, com o resultado saindo e o mercado já em movimento. A melhor hora é agora, com calma, longe do calor da campanha. A eleição vai acontecer de qualquer jeito. O que você pode escolher é chegar nela com a carteira pensada ou reagir a ela no impulso. Entre as duas, só uma protege o que você levou anos para construir.

