O ex-banqueiro Daniel Vorcaro é acusado pela Polícia Federal de vários crimes: gestão fraudulenta e temerária de instituição financeira, organização criminosa, emissão e venda de títulos de crédito falsos, além de fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional e o mercado de capitais. Em paralelo, constituiu uma rede de influências para ter ao seu lado diversas autoridades (e incluindo profissionais do sexo neste esforço). Quando se pensava que ele tinha ultrapassado todos os limites da ilicitude, surgiram mais denúncias, baseadas em material coletado em seu celular: Vorcaro armava ataques contra pessoas que considerava inimigas, entre os quais o jornalista Lauro Jardim, de “O Globo”.
De fala mansa, o ex-banqueiro era sociável e bastante sedutor. Mas, por trás da afabilidade, havia alguém frio, rancoroso e com ímpetos mafiosos. Vorcaro fazia parte de um grupo de WhatsApp chamado “A Turma”. Nele, havia ex-chefes do Banco Central, um policial civil aposentado e Fabiano Zettel, cunhado dele. As conversas registradas neste aplicativo mostram que o controlador do Banco Master planejava ações contra um grupo de potenciais adversários.
Com isso, vê-se que Vorcaro transcendeu as fronteiras do que se chama de crime do colarinho branco – aquelas transgressões que não empregam violência e apenas causam prejuízos financeiro. O tamanho do rombo criado pelo ex-banqueiro, de R$ 51,8 bilhões apenas no Fundo Garantidor de Crédito, o colocava como um gênio do delito financeiro. Mas as articulações com sua “turma” mostram que ele não passa de um miliciano barato, que usa a violência física como uma forma de chegar aos seus objetivos.
Por enquanto, o único alvo que se tem notícia é o de Lauro Jardim. “A ideia explicitada na troca de mensagens era primeiro me monitorar, me seguir, descobrir coisas ruins contra mim. Em segundo lugar, simular um assalto e, segundo o próprio Vorcaro, quebrar meus dentes. Foi planejado e dado OK do Vorcaro para que fosse seguido”, disse ele à rádio CBN.
O que poderia ter ocorrido com Lauro Jardim é praticamente uma repetição de um atentado cometido contra o jornalista Antonio Maria nos anos 1960. Ele foi atacado pelos capangas de um desafeto e o chefe dos jagunços orientou-os a pisar seguidamente nas mãos do jornalista. “Assim, ele não escreverá mais”, gritou o líder dos agressores. Em sua coluna, na manhã seguinte, o texto de Maria começava com uma frase que ficou célebre: “Que bobos! Eles pensam que o jornalista escreve com as mãos”.
A história de Antonio Maria serve como lembrete de que a violência contra jornalistas nunca foi apenas uma disputa pessoal: é um ataque ao direito de informar e ao direito da sociedade de ser informada. Quando um agente do sistema financeiro passa a operar como um chefe de bando — monitorando, perseguindo e planejando agressões — já não estamos diante de um simples colarinho branco, mas de alguém que internalizou a lógica da força bruta como instrumento de influência.
O fato de tudo ter vindo à tona a tempo não diminui a gravidade do que foi revelado; apenas reforça a urgência de compreender que o verdadeiro risco não está apenas nos bilhões desviados, mas na banalização da violência como método de poder.
Nos dias de hoje, muita gente fala mal da imprensa e a acusa de espalhar mentiras. Este caso, no entanto, mostra como a democracia depende de que jornalistas, como Maria e Jardim, continuem escrevendo mesmo quando tentam calá-los.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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