Hoje é meu aniversário. E, nos últimos dias, fiquei pensando se sempre fui a pessoa que sou hoje. Aliás, uma dúvida ficou formigando em minha mente: quando me tornei esse indivíduo? Depois de muitas lembranças, percebi que havia indícios da minha personalidade adulta aqui e ali na infância: gostava de ler e escrever, era observador e gastava um tempo considerável refletindo sobre as coisas. Mas talvez o embrião da pessoa que sou hoje surgiu aos dezesseis anos. Foi ali que meus interesses sobre economia e política afloraram e percebi que minha mente fervilhava de perguntas sobre diversos temas.
Mas a construção de minha personalidade não foi exatamente uma linha contínua. Houve evoluções, mas também rupturas que fizeram transformações radicais. Em meus tempos de estudante, experimentei uma arrogância discreta: achava que sabia de tudo e não tinha a menor ideia do tamanho de minha ignorância. Hoje percebo que, embora tenha uma cultura razoável, me sinto diminuto diante de todo o conhecimento que gostaria de acumular. Quando percebo isso, me envergonho da soberba que me acompanhou durante anos, não apenas na juventude. Mas não podemos mudar o passado e é melhor cuidar do presente e do futuro.
Ao longo dos anos, aprender com os erros foi algo difícil. Muitas vezes, insisti em cometer o mesmo engano algumas vezes, até finalmente entender que tinha de mudar. Neste sentido, fazer terapia foi uma das melhores coisas que aconteceram em minha vida: semanalmente, tinha a oportunidade de discutir o meu cotidiano e chafurdar o passado para encontrar as raízes do comportamento que tinha naquele momento.
Até os 28 anos, minha ascensão profissional foi rápida e constante. Mas, neste momento, resolvi arriscar tudo e mudar de área. Foi quando decidi sair da redação de EXAME e aprender como eram as áreas de negócios da revista. Assumi uma função que me deu oportunidades de conhecer circulação, comercial, eventos e marketing. Não fosse isso, teria dificuldades ainda maiores para me tornar empreendedor no futuro.
Essa ruptura me ajudou a não temer mudanças e entender como o risco é uma variável inevitável e importante em nossas vidas. Diante disso, nessa fase, avancei algumas casas para me tornar aquela pessoa que sou hoje.
Um pouco mais à frente, me tornei pai. Primeiro, de um menino. Um verdadeiro choque, pois não existem manuais para exercer esse papel. Além disso, por mais que possamos ler a respeito, somente a experiência é que vai moldar o exercício da paternidade. E, nessa caminhada, há apenas uma certeza: vamos errar bastante, nos esforçar incrivelmente e torcer para que as coisas deem certo.
Mas, depois, fui pai de uma menina. E descobri que muitas coisas que tinha aprendido ao longo dos anos com meu filho Rodrigo não valiam para criar a pequena Malu. O surgimento dessa criaturinha na minha vida, que recentemente completou dezoito anos, me abriu os olhos para diversas questões relacionadas às dificuldades que as mulheres ainda enfrentam nos dias de hoje. E fui me tornando alguém que busca uma sociedade que seja mais justa com o gênero feminino em todos os aspectos, não apenas o profissional. Para isso, tive que procurar o machista que havia dentro de mim e combatê-lo com todas as minhas forças. Aqui houve outro rompimento e o início de uma pessoa diferente, que está sempre atenta aos próprios atos, tentando ser alguém melhor.
Meu casamento com Cristina também foi crucial para que eu fosse moldando a pessoa que sou hoje. Trata-se de minha terceira união, que completará, no papel, vinte e dois anos em 2026. Vejo hoje que fui muito imaturo em minhas relações anteriores e que estava pronto para me entregar a alguém integramente quando mergulhei de cabeça nesse terceiro casamento. Aprendi aos poucos coisas que hoje vejo como básicas – e continuo recebendo lições importantes praticamente todo o dia.
Depois daquele período fora da redação, voltei ao ofício de jornalista e minha carreira deslanchou. Mas resolvi arriscar novamente, para trabalhar em publicidade. E isso me ensinou demais. Como jornalista, fui treinado para perceber aquilo que não fazia sentido e capturar o lado ruim das coisas. Na pele de publicitário, tiver de me reciclar e fazer o oposto: localizar rapidamente o que havia de bom dentro de um briefing. Isso fez um bem imenso à minha alma. E, mais uma vez, construí um pedacinho daquela pessoa que me tornei hoje.
Quando eu e Cristina criamos a plataforma MONEY REPORT, após uma tentativa malsucedida de sociedade no campo editorial, outro indivíduo começou a emergir dentro de minha personalidade. Alguém que entendia a importância de arriscar, mas ao mesmo tempo compreendia a necessidade de ter paciência e humildade. De preferir ouvir e buscar lições com gente que sabia mais que eu sobre a arte de empreender. De observar os erros alheios e evoluir com isso. E, principalmente, perceber os efeitos nocivos da vaidade e da falta de inteligência emocional.
Hoje, me sinto confortável ao perceber que há outras mudanças à frente, especialmente neste mundo cheio de novos paradigmas e de transformações bruscas. Sei que, por conta disso, não serei a mesma pessoa daqui a alguns anos, até porque estarei mais experiente. Meus filhos estarão mais velhos e isso vai provocar efeitos inexoráveis em meu cotidiano. Mas quero acreditar que estarei mais aberto do que nunca para não resistir às metamorfoses inevitáveis. Como um cérebro que funcione como o personagem Benjamim Button (imagem): cada vez mais jovem à medida que o tempo passa.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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