O presidente Luiz Inácio Lula da Silva parece ter despertado do transe em que se encontrava desde o final do ano passado, quando achava que estava praticamente reeleito. Subestimou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro e apostou em um crescimento nas intenções de voto com a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000,00 mensais. No entanto, o que viu foi um crescimento exponencial da candidatura de Flávio, que também lidera as pesquisas justamente na faixa salarial beneficiada pela isenção fiscal de Lula.
Lula ordenou que um pacote de bondades fosse confeccionado a toque de caixa para reverter o jogo eleitoral. Neste embrulho, estão um programa de renegociação de dívidas, subsídios para o diesel, gás de cozinha e energia elétrica, suspensão de multas nos pedágios “free flow” e revogação da chamada “taxa das blusinhas”. O resultado deste conjunto é o crescimento do já combalido déficit público – e a conta deste artifício ficará para o próximo governo. O presidente finalmente percebeu como o endividamento dos eleitores era prejudicial à sua candidatura e resolveu ressuscitar o programa Desenrola, de 2023, que foi copiado de uma ideia de Ciro Gomes para a campanha de 2022.
Mas, antes de fazer essa encomenda para a equipe econômica, mostrou-se inconformado com sua performance nas pesquisas eleitorais e botou a culpa deste endividamento na população brasileira: “É R$ 50 aqui, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas no final do mês, a soma dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente passa a ficar zangado. ‘Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí, quem vocês xingam? O governo”.
Usemos o mesmo raciocínio de Lula para interpretar o que ocorre hoje com as despesas públicas, que estão muito acima daquilo que o orçamento do Estado comporta. É um subsídio daqui, um agrado dali. Parece que não é nada. Mas, ao final de 2026, a dívida pública terá crescido 80% em relação ao montante devido pelo governo em janeiro de 2023. Com essa disposição de gastar mais do que deveria, o governo força o Banco Central a manter juros altíssimos para controlar a inflação. Os brasileiros, pressionados por taxas escorchantes, não conseguem pagar as dívidas e são negativados (81 milhões de pessoas estão nessa situação). E daí, quem é que esses cidadãos xingam? O governo. Com toda a razão. O pacote se bondades de Lula, porém, não atinge a maior das preocupações dos brasileiros: a segurança pública.
A sensação de insegurança que os habitantes das cidades médias e grandes é enorme – e a culpa disso também acaba caindo no colo do governo federal. Há, neste tópico, um agravante: a insegurança atravanca a prosperidade econômica. Um estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas e publicado pelo jornal Valor Econômico chegou à conclusão de que as cidades mais seguras do Brasil registraram um aumento entre 7% e 10% na oferta de empregos formais e na abertura de empresas. Ou seja, um país inseguro é uma nação que tem travas em seu desenvolvimento econômico. O pacote de bondades pode virar o jogo das eleições? A polarização reduziu drasticamente o espaço para mudanças bruscas de humor do eleitorado.
Há um contingente de eleitores independentes de centro que não se move apenas por medidas econômicas de curto prazo e que costuma reagir de forma mais cautelosa a ações tomadas em momentos de pressão eleitoral. Esse grupo, hoje, é decisivo para qualquer virada. As iniciativas anunciadas pelo governo podem até gerar algum alívio imediato, mas não necessariamente produzem impacto suficiente para alterar a dinâmica eleitoral. A percepção de insegurança, o custo de vida e a desconfiança em relação ao aumento do déficit público pesam muito para esse segmento. Diante disso, é possível que o pacote de bondades não alcance o efeito desejado e não seja capaz de reverter a tendência atual das pesquisas.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
*Leia mais colunas do autor clicando aqui.












