No último domingo, na Avenida Paulista, cerca de 14.000 manifestantes elegeram o vilão número um da esquerda. Jair Bolsonaro? Não. O eleito da vez foi o presidente da Câmara, Hugo Motta, chamado de “inimigo do povo” por vários líderes que pegaram o microfone para falar com uma plateia claramente menor que a esperada.
Dias antes, o padrinho político de Motta, Arthur Lira, chamou a gestão do pupilo de “desmoralizada” e “decepção” em conversas com aliados, além de uma “esculhambação” em grupo de WhatsApp do PP. Lira criticou a falta de liderança, o uso da Polícia Legislativa contra a imprensa e pautas sem acordo prévio.
Hugo Motta é um caso de unanimidade em meio a um cenário polarizado: é rejeitado pela esquerda e pela direita (por motivos diferentes, diga-se). O fato é que ele perdeu o respeito dos parlamentares. Como presidente da Câmara, ele controla a agenda, os ritos e os microfones, mas o uso desse poder com favoritismos ou manobras regimentais reforça a percepção negativa dentro do Congresso.
Para tornar tudo ainda mais complicado, Motta ignora bancadas menores e joga duro demais com a esquerda (o uso de violência para retirar o deputado Glauber Braga da mesa diretora, na semana passada, contrastou com o tratamento dispensado aos deputados de direita que fizeram o mesmo em agosto).
A falta de vivência é um tempero complicado nesta receita: ele tem apenas 36 anos. Embora jovem, ele possui 15 anos de experiência como parlamentar. Mas uma coisa é ser um dos 513 deputados; outra é comandar esse grupo.
Motta também se desgasta pela forma como conduz a pauta econômica. Ao priorizar projetos sem consenso e ao atropelar discussões relevantes, transmite a imagem de alguém mais preocupado em agradar setores específicos do que em construir soluções coletivas. Essa postura reforça a ideia de improviso e fragilidade, minando qualquer tentativa de se firmar como articulador de peso. A Câmara, sob sua batuta, parece mais um palco de disputas internas do que um espaço de deliberação madura.
Outro ponto crítico é a relação com a imprensa. O uso da Polícia Legislativa contra jornalistas ampliou a percepção de autoritarismo e intolerância — uma das profissionais atingidas pela truculência, por sinal, foi nossa ex-colega, Deborah Hannah Cardoso, que ocupou o posto de editora em MONEY REPORT e hoje trabalha na sucursal brasiliense da TV Record.
O caminho para a reconstrução da imagem negativa passa por humildade e capacidade de ouvir. Se Motta quiser reverter o quadro, terá de abandonar o estilo centralizador e abrir espaço para negociações reais, sem manobras regimentais ou parcialidade. Precisa mostrar que é capaz de exercer as funções de árbitro, não sendo apenas um operador de demandas. Se conseguir transformar a crítica em aprendizado e a rejeição em oportunidade de diálogo, poderá sair da confusão em que se meteu e recuperar parte da credibilidade perdida. Caso contrário, continuará patinando.
Uma liderança é respeitada pelo conjunto de características que se concentram naquele indivíduo que a exerce. Estamos falando de traços como sagacidade, senso de justiça, carisma, competência, coerência e empatia. Motta, porém, parece não possuir nenhuma dessas qualidades. Por conta disso, consegue desagradar a gregos e troianos.












