Uma anedota antiga envolvendo o jogador Garrincha e o técnico Vicente Feola termina com uma pergunta do craque ao treinador: “Mas o senhor combinou com os russos?”. Essa frase é sempre lembrada para ilustrar situações nas quais alguém traça uma estratégia sem levar em consideração as reações de um personagem em particular. No caso da tática criada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o “russo” em questão é o ministro Márcio França, que desejava manter sua candidatura ao Palácio dos Bandeirantes, em contraposição ao nome escolhido pelo Planalto, o do ex-ministro Fernando Haddad.
Lula não apenas ungiu Haddad como seu candidato em São Paulo como também instruiu a ministra Simone Tebet para deixar o MDB e mudar seu domicílio eleitoral para São Paulo e se transferir para o PSB (mesmo partido de França). Esse movimento adicional reduziu a margem de manobra do presidente. O que ele poderá oferecer ao ministro pessebista? A alternativa mais provável seria garantir a candidatura de Márcio França ao Senado. Mas o PT iria apoiar dois nomes do PSB à Câmara Alta? E o que fazer com a ministra Marina Silva, a quem foi oferecida a possibilidade de concorrer ao Senado por São Paulo, com o apoio de Lula?
Essa confusão promete complicar um pouco a situação de Fernando Haddad, que já encontrou um mote para sua campanha: colocar a crise do Banco Master no colo de seu oponente, o governador Tarcísio de Freitas. Haddad vem dando entrevistas nas quais dá atenção especial ao fato de que o banco de Daniel Vorcaro não foi reprimido pelo Banco Central na gestão de Roberto Campos Neto. E, ato contínuo, faz a ligação entre Campos e o ex-presidente Jair Bolsonaro, lembrando que o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, foi o maior doador das campanhas do próprio ex-presidente e de Tarcísio.
Ocorre que a estratégia de Daniel Vorcaro era a de criar uma frente pluripartidária da blindagem, não ficando apenas em um lado do espectro ideológico. Um exemplo disso pode ser visto nos indícios que se acumulam sobre os contratos com pessoas próximas a autoridades dos Três Poderes, cada qual originário de um universo partidário específico, da direita à esquerda.
Tudo o que se fala, hoje, contudo, poderá ser desmentido pela delação de Daniel Vorcaro. Por isso, Fernando Haddad ainda não endureceu de vez o discurso em direção aos oponentes, preferindo mirar no processo de privatização da Sabesp, promovido por Tarcísio. Embora não admita, Haddad entrou na disputa com mínimas chances de vitória e sua missão é fazer com que Lula perca por pouco, no segundo turno, do senador Flávio Bolsonaro.
Resolver o problema de Márcio França será crucial para executar a tática lulista no maior colégio eleitoral do país. O petismo precisa de uma chapa coesa para maximizar votos em São Paulo. A falta de sintonia entre PT e PSB poderia beneficiar a direita paulista, terreno em que Tarcísio consolida liderança inabalável. Isso deve forçar o presidente da República a encontrar uma moeda de troca que sensibilize a esquerda como um todo. Por esta razão, a prioridade número 1 de Lula, a partir de agora, é se acertar com seu ministro do Empreendedorismo.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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