A última pesquisa Meio/Ideia mostra um amplo deterioramento da imagem do Supremo Tribunal Federal. Cerca de 70% dos pesquisados acham que a credibilidade do STF ficou abalada com o caso Master, após os vazamentos envolvendo os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. Além disso, 44% dos entrevistados responderam que aumentaram as chances de escolher um candidato a senador que prometesse votar o impeachment de juízes do Supremo.
Para piorar o cenário, o ministro Dias Toffoli foi sorteado ontem para analisar a ação que pede a instalação imediata na Câmara de uma CPI para investigar as fraudes ocorridas entre o BRB e o Banco Master. Assim que o resultado do sorteio foi divulgado, as redes vieram abaixo, com comentários ácidos e irônicos surgindo de todos os matizes ideológicos.
Toffoli teve o bom senso de se declarar suspeito e abrir mão da posição, sendo substituído por Cristiano Zanin. Essa foi uma atitude sensata e lógica. Mas muitos temeram que os preceitos mais básicos da lucidez fossem ignorados e que o ministro permanecesse na vaga sorteada. Isso mostra o quanto o STF exagerou no quesito soberba, turbinado por um espírito de corpo que poucas vezes se viu na Alta Corte.
Aliás, falando em corporativismo, é sempre bom lembrar que no processo em que Dias Toffoli se afastou da relatoria do caso Master, o Supremo fez questão de dizer que ele não estava sob suspeição. Mas o próprio ministro se disse suspeito para julgar a ação para instalar uma CPI que investigaria as fraudes do banco de Daniel Vorcaro. Toffoli declarou que suas razões para isso eram de “foro íntimo”. Mas o que vale para a Justiça? Ele não era considerado sob suspeição e agora é?
Outra curiosidade: se Alexandre de Moraes tivesse sido sorteado no lugar de Toffoli, ele também se declararia suspeito neste caso? A julgar pelo temperamento do ministro, que está sempre alheio à opinião pública, sua reação talvez não fosse a mesma de Toffoli, o que poderia turbinar de vez a crise de imagem pela qual passa o STF.
Até agora, a sucessão de movimentos contraditórios apenas ampliou a sensação de desorientação institucional. Cada gesto, cada nota oficial, cada recuo ou avanço parece reforçar a percepção de que o tribunal perdeu a capacidade de compreender o impacto de suas decisões sobre a opinião pública. A crise atual é resultado de anos de atritos acumulados, decisões mal explicadas e uma comunicação que raramente dialoga com a sociedade.
Nesse ambiente, qualquer sinal de incoerência se transforma em combustível para a desconfiança. A população observa um tribunal que, em tese, deveria ser o guardião da estabilidade, mas que frequentemente se vê envolvido em disputas internas, interpretações divergentes e episódios que alimentam suspeitas. A falta de clareza sobre critérios de suspeição, somada à dificuldade de estabelecer parâmetros uniformes, contribui para a impressão de que cada caso é tratado de maneira improvisada.
O desgaste não se limita ao episódio atual. Ele se soma a uma série de decisões que, ao longo dos últimos anos, foram recebidas com estranhamento por diferentes setores da sociedade. A consequência é um ambiente em que qualquer novo acontecimento, por menor que seja, encontra terreno fértil para interpretações negativas. A confiança, uma vez abalada, exige transparência para ser reconstruída e isso não se alcança com comunicados esparsos ou justificativas vagas.
O episódio envolvendo o caso Master apenas acelerou um processo que já estava em curso. A percepção de distanciamento entre a corte e a sociedade se tornou mais evidente e a necessidade de respostas claras passou a ser inadiável. O STF conseguirá recuperar a autoridade simbólica que sempre foi essencial para o funcionamento do sistema institucional brasileiro? Talvez e resposta esteja em uma frase recente do presidente do Supremo, Edson Fachin: “Ou nos autolimitamos, ou poderá haver limitação de um Poder externo”.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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