A Quarta-feira de Cinzas, para milhões de brasileiros, é o verdadeiro início do ano, pois o país só começaria a se mexer para valer depois do Carnaval. Curiosamente, entre os cristãos, este é um período de recolhimento. Nas igrejas, fiéis recebem cinzas na testa ao som da advertência milenar, “viemos do pó e ao pó voltaremos”, e se comprometem com jejuns e penitências. Esse comportamento contrasta bastante com o que ocorre no mundo político. Nesta seara, a data de hoje inaugura outro tipo de ritual: a busca por acordos nos corredores do poder e a investigação incessante para encontrar podres entre os adversários.
Enquanto a liturgia cristã relembra os 40 dias em que Jesus resistiu às provações no deserto, Brasília vive um cotidiano no qual as tentações não são enfrentadas, mas cultivadas. Passado o Carnaval, o calendário político desperta com apetite renovado. Em vez de domar paixões, exalta-se o ódio aos oponentes.
Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o desfile de samba no Rio fez bem ao próprio ego, com os Acadêmicos de Niterói exaltando sua trajetória. O enredo, no entanto, trará três problemas para Lula. Em primeiro lugar, abriu a porta para um processo de propaganda eleitoral antecipada, o que poderia causar, em última instância, a inelegibilidade do presidente (uma possibilidade remota, diga-se). O desfile também acabou destilando o ódio dos eleitores conservadores ao mostrar um carro alegórico no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro era preso. Por fim, a passarela criou mais uma questão. Esta última, de fato, deixou Lula preocupado.
Uma das estratégias do Planalto era trazer para sua órbita o MDB, abrindo a possibilidade de a sigla ocupar a vice-presidência na chapa de reeleição. Ocorre que um dos carros alegóricos mostrou um folião fantasiado de Michel Temer roubando a faixa presidencial de uma mulher que representava Dilma Rousseff.
Essa cena azedou o clima entre os emedebistas. Já havia uma enorme resistência ao movimento de Lula para se aproximar do partido, uma vez que a maioria dos diretórios se alinha com a oposição. Mas a cutucada em Temer zerou as negociações. Os petistas vão dizer que nada tiveram a ver com isso e que a dinâmica do desfile foi criada pela escola de samba. Contudo, os situacionistas, diante do deboche com Temer, perderam a força dentro da agremiação.
Não fosse o mal-estar causado dentro das hostes emedebistas, a negociação para atrair a sigla presidida por Baleia Rossi continuaria em curso. Este modus operandi revela como o país se acostumou a tratar a política como um jogo de conveniências, e não como um espaço de ideias. O fisiologismo, que deveria ser exceção, virou método. Partidos que mudam de lado conforme o vento, alianças que duram o tempo de um enredo de Carnaval e negociações que ignoram qualquer coerência ideológica apenas empurram o Brasil para um atraso persistente.
Enquanto isso, seguimos divididos entre extremos que não dialogam e moderados que não se arriscam. O debate público foi substituído por brigas, e a construção de consensos cedeu espaço a acordos subterrâneos entre fisiologistas. O Brasil precisa urgentemente recuperar a capacidade de discutir ideias, não apenas trocar acusações. Necessitamos urgentemente de partidos que defendam projetos, não cargos. Neste cenário, a ética deve ser regra, não exceção. Sem isso, continuaremos presos ao mesmo ciclo: um país que começa o ano na Quarta-feira de Cinzas, mas cuja política insiste em permanecer eternamente no Carnaval.
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