Quantas vezes as pessoas olham para um termômetro e ficam intrigadas com uma sensação térmica diferente da temperatura registrada pelo aparelho? Isso ocorre porque o corpo humano interpreta calor e frio a partir de uma combinação de fatores ambientais que influenciam a troca de calor com o ambiente. Em dias quentes, por exemplo, a alta umidade dificulta a evaporação do suor (a principal forma que um organismo encontra para se resfriar). Assim, uma temperatura de 33 graus pode ser percebida como 45 graus ou até mais. No frio, o vento pode remover a fina camada de ar aquecido que naturalmente protege a pele, acelerando a perda de calor. Com isso, uma temperatura de 5 graus pode parecer dez graus negativos.
Um fenômeno parecido parece atingir a sociedade de diversas formas. Os últimos índices econômicos no Brasil mostram um mercado de trabalho aquecido e inflação em queda. Muitos brasileiros, porém, têm uma impressão de que a inflação está em alta e a economia enfrenta dificuldades.
Alguns indicadores de segurança pública apresentam evolução, apesar de uma sensação entre a população que estamos em um ambiente cada vez mais inseguro. O país registrou em 2025 uma queda de 11% nos homicídios, com 34.086 casos ante 38.374 no ano anterior. Foi o quinto ano consecutivo de redução, acumulando baixa de 25% desde 2020 e alcançando a menor taxa desde 2011, de 21,2 por 100 mil habitantes.
Na saúde pública, esse descompasso entre indicadores e percepção também aparece com força. Mesmo diante de dados que mostram avanços consistentes, como aumento da expectativa de vida ou queda na mortalidade infantil, muitos brasileiros sentem que o sistema está piorando. Parte dessa impressão nasce do cotidiano: filas mais longas em hospitais, dificuldade para conseguir consultas e a experiência direta de um atendimento precário pesam mais na memória do que estatísticas positivas. Além disso, surtos localizados ou casos graves ganham grande visibilidade na mídia e nas redes sociais, criando a sensação de que determinadas doenças estão fora de controle.
Mas por que exuste essa distância entre percepção e realidade na economia, na segurança e na saúde? Esse descompasso nasce de mecanismos bem conhecidos. A exposição a notícias negativas faz com que episódios graves ganhem mais visibilidade do que avanços graduais, moldando um ambiente que privilegia o sensacionalismo. A comparação com expectativas também pesa: quando a população espera melhorias rápidas, qualquer frustração pontual reforça a impressão de deterioração. Soma-se a isso o efeito das redes sociais, que amplificam experiências individuais negativas, viralizam casos extremos e criam bolhas de conteúdo que confirmam interpretações negativas. O resultado é uma espécie de “sensação térmica social”, em que fatores emocionais e informacionais distorcem a leitura da realidade, produzindo um clima de pessimismo que nem sempre corresponde ao que mostram os dados.
O resultado disso é uma insatisfação generalizada, que atinge praticamente todos os brasileiros, da extrema-esquerda à extrema-direita. Os culpados pela situação, segundo o filtro desses extremos, são diferentes, de acordo com a orientação ideológica de cada um. Mas a insatisfação é a mesma.
Essa percepção se alimenta de um sentimento difuso de frustração. Cada grupo político interpreta essa sensação à sua maneira, mas todos convivem com a impressão de que algo essencial está fora do lugar. A extrema-direita enxerga decadência moral, insegurança e perda de autoridade; a extrema-esquerda vê desigualdade persistente, serviços públicos insuficientes e falta de proteção social. No centro, cresce a ideia de que o país está preso em disputas intermináveis que impedem qualquer avanço consistente. Essa convergência no descontentamento cria um terreno fértil para discursos que exploram o mal-estar coletivo, reforçando a percepção de que o Brasil vive uma crise permanente.
A sensação de que nada melhora se espalha com facilidade porque se apoia em experiências cotidianas que parecem confirmar o pessimismo. A política, nesse ambiente, deixa de ser vista como instrumento de solução e passa a ser percebida como parte do problema. A confiança nas instituições se desgasta, e a disposição para acreditar em dados positivos diminui. O humor social se torna mais volátil, mais sensível a choques e mais vulnerável a narrativas que reforçam o negativismo.
Esse estado de espírito cria uma espécie de unanimidade. Mesmo quando há avanços reais, eles parecem insuficientes diante da expectativa de transformação profunda que nunca chega. A insatisfação se torna uma lente que distorce a leitura da realidade e alimenta um ciclo contínuo de descrença. O país passa a se enxergar como um lugar onde tudo está sempre por fazer, sempre atrasado, sempre aquém do possível. É um sentimento que une grupos que discordam de tudo, menos da ideia de que o Brasil não está funcionando como deveria.
Precisamos varrer esse sentimento negativo do Brasil e iniciar um processo pragmático de reconstrução. Ou, como diria o escritor Ignácio de Loyola Brandão, não veremos país nenhum.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
*Leia mais colunas do autor clicando aqui.













