Não é segredo para ninguém que, nos últimos tempos, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, não tem a mesma sintonia de antes com o secretário Gilberto Kassab, o líder máximo do PSD. Tarcísio, inclusive, enfrentou desgastes com aliados bolsonaristas por conta do poder dado a Kassab no início de seu mandato. Naquele momento, o governador era um marinheiro de primeira viagem e precisava do apoio de um político experiente na arte da articulação política ao seu lado. Por isso, Kassab foi ungido à uma posição de comando no Palácio dos Bandeirantes.
Ocorre que o desconforto sentido pela base bolsonaristas se espalhou pelos outros partidos de centro e de direita. A razão de tudo isso foi o desempenho do PSD nas últimas eleições municipais de 2024. Antes deste pleito, Kassab controlava apenas 65 prefeituras.
Nas eleições de 2024 em São Paulo, contudo, o PSD passou a liderar com ampla vantagem o ranking de prefeituras paulistas ao conquistar 206 municípios, seguido pelo PL, que obteve 104, e Republicanos, com 84. O MDB apareceu na sequência com 67 administrações, enquanto o PP alcançou 47 e o União Brasil, 34. O Podemos somou 31 prefeituras, e o PSDB, em forte declínio, terminou com apenas 21. O resultado redesenhou o equilíbrio de forças no estado e consolidou o PSD como a sigla mais influente no interior do estado.
Os demais partidos acusaram Kassab de utilizar sua posição no governo para turbinar o próprio partido e passaram a criticá-lo abertamente. Muitos líderes partidários foram além e começaram a minar a relação entre Tarcísio e o líder pessedista. Ao final do ano passado, o vínculo entre os dois tinha azedado e o clima piorou de vez quando, em janeiro, Kassab disse o seguinte: “Uma coisa é gratidão, reconhecimento, lealdade; outra coisa é submissão”.
Kassab ainda estava inconformado com a desistência de Tarcísio de concorrer à presidência e ter abraçado a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, indicado pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Por isso, insinuou que Tarcísio não estava sendo leal à família Bolsonaro e sim submisso.
Esse clima pesado, no entanto, colocou em suspensão a escolha do companheiro de chapa do governador. Kassab tem interesse nessa vaga, pois seria o candidato natural à sucessão de Tarcísio. Hoje, o cargo é ocupado por Felício Ramuth, que é do mesmo PSD. Mas, agora, os adversários de Kassab se movimentam para ocupar o posto que resta na chapa de reeleição.
Ocorre que essa vaga pode interferir no segundo turno das eleições presidenciais.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manda com frequência sinais de fumaça a Gilberto Kassab, pedindo seu apoio no segundo turno – mas também ficaria muito feliz com uma declarada neutralidade. Se Kassab ocupar a vice de Tarcísio, entretanto, esse movimento será virtualmente impossível. Mas se o pessedista estiver livre na pista, Lula tem maiores chances de costurar o apoio do PSD contra Flávio Bolsonaro.
Portanto, os partidos de direita deveriam engolir o orgulho ferido. Para eles, a melhor solução é ter Kassab ao lado de Tarcísio e obrigado a apoiar Flávio Bolsonaro. No atual cenário eleitoral, uma raposa política livre, leve e solta é algo que só interessa ao PT.
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