Está em curso uma pesquisa do Datafolha que será divulgada no sábado. A enquete trará três perguntas sobre o endividamento dos brasileiros, um dos temas do momento, que seria um dos fatores de impopularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas o mesmo estudo vai mostrar as intenções de voto na corrida presidencial. Será a primeira pesquisa que vai registrar o comportamento do eleitorado depois do lançamento oficial da pré-candidatura de Ronaldo Caiado pelo PSD.
Muitos se perguntaram qual seria a lógica de Gilberto Kassab em escolher um candidato que se coloca claramente à direita, em vez de escolher um postulante que estivesse mais alinhado ao centro, como o governador Ratinho Jr., que saiu do páreo. Em tese, um perfil como o do ex-governador goiano bateria de frente com o do senador Flávio Bolsonaro e estaria condenado a uma posição de coadjuvante na campanha de 2026.
Houve quem dissesse que o foco de Kassab não seria a eleição presidencial e sim o pleito para o Legislativo, de olho em uma boa performance na obtenção de deputados federais. Como se sabe, o critério de distribuição do fundo eleitoral é a quantidade de representantes na Câmara Federal. Quem tem mais deputados, recebe mais recursos.
Esse raciocínio não está totalmente errado. Mas, no fundo, Kassab – conhecido por ser um dos mais habilidosos políticos de sua geração – está fazendo uma aposta. Ele sabe que o PSD tem baixas chances de eleger um presidente diante do cenário polarizado em que vivemos. Mas resolveu investir em Caiado porque acredita que o senador será bombardeado pelos opositores a ponto de desistir de sua candidatura (hoje, a chance de isso ocorrer, no entanto, é nula).
Parece uma teoria da conspiração. Mas é o que se comenta nos bastidores pessedistas. Caso Flávio saia da disputa, a direita precisaria de um candidato para chamar de seu. Caiado cairia feito uma luva neste papel. E o centro, pilhado para tirar Lula do poder, iria aderir ao ex-governador de bom grado. Não é por outra razão, portanto, que Caiado tenha defendido publicamente bandeiras bolsonaristas, como a anistia aos envolvidos na chamada trama golpista (incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro).
Caiado tenta ocupar um espaço que ainda não está totalmente definido no tabuleiro eleitoral. Seu nome por enquanto não tem apoio nacional, mas carrega a imagem de defensor da segurança pública e da livre iniciativa, atributos que podem atrair parte do eleitorado conservador caso o campo da direita enfrente turbulências. Ele também chega à disputa com o apoio de um partido estruturado e com presença relevante no Congresso, o que lhe garante tempo de TV, capilaridade e condições mínimas de competitividade. Mesmo assim, enfrenta o desafio de se apresentar como alternativa viável em um ambiente dominado por duas forças muito consolidadas.
Outro ponto que joga a seu favor é a percepção de que representa uma direita mais tradicional, menos dependente da lógica das redes sociais e mais conectada ao eleitorado do agronegócio e de regiões do interior. Esse perfil pode ser útil caso o debate eleitoral se desloque para temas como segurança, economia e gestão pública, áreas em que Caiado costuma se posicionar com desenvoltura. Mesmo assim, ele precisa romper a barreira da visibilidade nacional, já que sua projeção fora do Centro-Oeste é limitada e sua imagem ainda não está totalmente cristalizada entre os eleitores do Sudeste e do Nordeste.
As chances de Caiado dependem, sobretudo, da capacidade de se manter na disputa até que o cenário se mova a seu favor. Ele aposta na possibilidade de uma reconfiguração do campo da direita, seja por desgaste de candidaturas, seja por rearranjos internos que abram espaço para um nome com perfil mais institucional. Caso isso ocorra, pode surgir como opção para eleitores que rejeitam Lula, mas também não se sentem plenamente representados por outras figuras do espectro conservador. É uma estratégia de espera, sustentada pela leitura de que a eleição ainda está distante e que o tabuleiro pode mudar de forma brusca. No fundo, no fundo, quem está jogando parado é Ronaldo Caiado — e não Flávio Bolsonaro.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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