Há algumas semanas, durante evento do BTG Pactual, o ministro Fernando Haddad defendeu a atuação do governo na economia, lembrando que “as agências de risco melhoraram a nota do Brasil”. Em seguida, cutucou: “E a imprensa brasileira criticou as agências”. Neste momento, a jornalista Amanda Klein, que moderava a discussão, ironizou: “É, o jornalismo é um problema”.
Haddad foi em frente e desenvolveu a crítica, argumentando que a mídia brasileira estaria distorcendo sinais positivos e que quando o governo entrega resultados melhores do que o esperado, parte da imprensa tenta reinterpretar esses resultados de forma negativa.
“O mundo está reconhecendo o esforço que estamos fazendo. Mas aqui dentro, quando vem um reconhecimento, tentam transformar isso em notícia ruim”, afirmou.
Esse raciocínio foi construído para mostrar que o governo estava fazendo sua parte no ajuste fiscal das contas públicas – o que está muito longe da realidade – e que as agências de risco reconheciam tal esforço. O argumento do ministro, no entanto, veio à lona nesta semana, quando a Fitch – uma das maiores agência de rating do mundo – soltou um relatório técnico em forma de perguntas e respostas sobre o o panorama fiscal brasileiro.
A Fitch afirmou que não elevará a nota de crédito do Brasil enquanto o país não apresentar um plano de consolidação fiscal de credibilidade, capaz de estabilizar a dívida pública no médio prazo. Para a agência, a fragilidade fiscal continua sendo o principal ponto de vulnerabilidade do rating brasileiro e qualquer perspectiva de upgrade depende de um compromisso claro e verificável com a trajetória da dívida pública.
Ao mesmo tempo, a Fitch deixou claro que não exige um ajuste fiscal totalmente fechado de imediato. O que ela considera indispensável é a demonstração de progresso inicial concreto e a construção de confiança de que o governo será capaz de avançar de forma consistente na melhoria das contas públicas. Em outras palavras, o plano não precisa estar completo agora, mas precisa ser crível, mensurável e politicamente viável.
Em ano de eleições, na qual a recondução do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está em jogo, quais são as chances de isso acontecer?
Zero.
Mas a Fitch levanta uma questão importante no mesmo documento: qualquer governo eleito em 2026, independentemente de ser de esquerda ou de direita, terá de promover um esforço adicional de consolidação fiscal. Segundo a agência, a trajetória da dívida pública exige medidas mais duras para estabilização, e isso significa que o próximo governo enfrentará escolhas difíceis envolvendo aumento de receitas, corte de despesas ou uma combinação das duas estratégias. A avaliação é de que o desafio é estrutural e não depende da orientação ideológica do governo.
A nota também destacou que o ambiente político brasileiro cria obstáculos relevantes para qualquer plano de ajuste. A Fitch observou que um governo de esquerda tende a enfrentar resistência a cortes de gastos, enquanto um governo de direita encontra oposição a aumentos de impostos. Além disso, a agência lembrou que o Congresso já diluiu mecanismos de controle de despesas em votações recentes, o que reforça a percepção de que o país terá dificuldade para aprovar medidas fiscais mais duras no futuro próximo.
Entre os economistas, crescem as apostas que em uma eventual vitória de Lula, haverá a escolha por um caminho ortodoxo para acertar os últimos anos de irresponsabilidade fiscal. Neste caso, haveria a escolha de um ministro moderado para a Fazenda, que faria os ajustes orçamentários para frear a economia, domar a inflação e trazer a dívida pública para um patamar palatável.
Mas já vimos esse filme antes – e morremos no final. A ex-presidente Dilma Rousseff fez exatamente a mesma coisa no início de seu segundo mandato, nomeando Joaquim Levy para a Fazenda.
Levy propôs cortes de gastos, revisão de desonerações, recomposição de tarifas represadas e uma meta de superávit primário ambiciosa para recuperar a credibilidade das contas públicas. A estratégia buscava sinalizar responsabilidade fiscal e conter o avanço da dívida, mas exigia medidas impopulares e um grau de disciplina que o governo já não conseguia sustentar politicamente.
Ao mesmo tempo, o ministro enfrentou forte resistência dentro do próprio governo e do PT. Lideranças petistas o acusavam de impor uma agenda “neoliberal” e contrária ao programa eleito, enquanto o núcleo político esvaziava suas propostas no Congresso e diluía metas fiscais. Ministros próximos a Dilma o contradiziam publicamente, e a pressão para abandonar cortes e preservar desonerações minou sua autoridade. Isolado e sem apoio interno, Levy acabou deixando o cargo.
A lembrança desse episódio mostra como ajustes fiscais exigem mais do que boas intenções ou discursos otimistas. Eles dependem de coesão política, disposição para enfrentar custos e capacidade de sustentar medidas impopulares por tempo suficiente para que produzam resultados. Sem isso, qualquer promessa de responsabilidade fiscal se desfaz diante da primeira resistência interna, como ocorreu em 2015. O alerta da Fitch apenas reforça que o país continua preso ao mesmo dilema: sabe o que precisa ser feito, mas raramente encontra ambiente político para fazer. Enquanto essa contradição persistir, o debate sobre esforço fiscal seguirá oscilando entre declarações de confiança e a realidade dura das contas públicas.
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.













