O foco absoluto dos mercados globais nesta quarta-feira (21) esta no discurso de Donald Trump em Davos. Em um ambiente já marcado por tensões geopolíticas e incertezas institucionais, o presidente dos Estados Unidos voltou a ocupar o centro do tabuleiro ao combinar retórica agressiva, ameaças comerciais e movimentos diretos contra a independência do Federal Reserve.
O primeiro grande teste do dia ocorre às 10h30, quando Trump discursa no Fórum Econômico Mundial, em Davos. A expectativa é de que o tom adotado amplifique a volatilidade dos ativos globais, especialmente após a escalada de confrontos diplomáticos com a Europa e o avanço de disputas institucionais nos Estados Unidos.
Poucas horas depois, ao meio-dia, a Suprema Corte americana analisa o caso envolvendo Lisa Cook, diretora do Fed que Trump tenta afastar do cargo. O julgamento é acompanhado de perto por investidores por representar um teste direto à autonomia do banco central americano, considerada um dos pilares da estabilidade financeira do país.
A leitura predominante no mercado é que o episódio ultrapassa a dimensão jurídica e passa a configurar um risco institucional, ao abrir precedente para interferência política direta sobre a política monetária.
Ofensiva contra a Europa e tensão geopolítica movimentam o mercado
A pressão política ganhou novos contornos com a ofensiva de Trump contra a Europa. O presidente ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses, em movimento interpretado como ataque direto ao governo de Emmanuel Macron e à política comercial da União Europeia.
Além disso, Trump sinalizou que não pretende participar da próxima reunião do G7, marcada para Paris, elevando o ruído diplomático e reforçando o isolamento político dos Estados Unidos em relação aos principais fóruns multilaterais.
Outro fator que chama a atenção dos mercados é a retórica cada vez mais agressiva sobre a Groenlândia. Declarações recentes levaram o governo local a orientar a população a se preparar para possíveis interrupções de serviços, inclusive mantendo alimentos em casa, diante do aumento das tensões com Washington.
A combinação entre tarifas, retórica expansionista e confronto diplomático sinaliza uma mudança estrutural no padrão de risco geopolítico, que deixa de ser pontual e passa a ser permanente na precificação dos ativos.
Fed sob ataque e especulação sobre sucessão
No front monetário, cresce a especulação sobre o chamado “Novo Fed”. Trump pode anunciar já na próxima semana o nome escolhido para substituir Jerome Powell na presidência da autoridade monetária.
Entre os nomes ventilados estão executivos ligados ao mercado financeiro, como profissionais associados à BlackRock, quadros próximos à Casa Branca e ex-diretores do próprio Fed. A expectativa de um perfil mais alinhado politicamente ao presidente reforça os temores de politização da política monetária americana.
A situação é agravada pelo calendário institucional. A Suprema Corte deve entrar em recesso de quatro semanas após o julgamento desta quarta-feira, o que frustra expectativas de reversão rápida das tarifas já anunciadas. A próxima janela relevante para decisões judiciais ocorre apenas em 20 de fevereiro.
Brasil: fiscal e juros seguem no radar do mercado
No Brasil, o cenário externo conturbado se soma às incertezas fiscais domésticas. O Tribunal de Contas da União pressiona o governo por correções em gastos fora do Orçamento, ampliando a vigilância institucional sobre a política fiscal e reacendendo preocupações sobre a trajetória da dívida pública.
No campo monetário, o banco Inter adiou sua expectativa de início do ciclo de cortes da Selic de janeiro para março. A instituição cita inflação ainda resistente, risco fiscal em ano eleitoral e maior cautela do Banco Central como principais fatores para a mudança de projeção.
Com isso, a estimativa de juro terminal subiu para 12,50% em 2026, refletindo um ambiente de política monetária mais restritiva por período prolongado.
Política no centro da volatilidade global
A leitura predominante entre analistas é que o mundo entrou em uma fase de volatilidade política estrutural. A combinação entre Trump, Fed, tarifas comerciais e tensões geopolíticas tende a manter os mercados globais instáveis, com maior sensibilidade a discursos, decisões institucionais e conflitos diplomáticos.
Nesse contexto, o Brasil aparece como beneficiário relativo. O país segue com valuation atrativo, fluxo estrangeiro consistente e exposição favorável a commodities, fatores que ajudam a sustentar o desempenho dos ativos locais mesmo em um cenário internacional mais adverso.













