O risco fiscal voltou ao centro das atenções do mercado financeiro brasileiro, mesmo com o Ibovespa operando em máximas históricas. Para a economista-chefe do Inter, Rafaela Vitória, a alta da Bolsa não reflete, necessariamente, uma melhora estrutural dos fundamentos domésticos, mas sim um movimento impulsionado por fatores externos.
“Normalmente, o chamado ‘kit Brasil’ é Bolsa em alta e juros em queda. Hoje temos exatamente o oposto: Bolsa renovando recordes e taxas de juros também em níveis elevados”, afirma.
Bolsa sobe, mas risco fiscal segue como principal fator
Na avaliação de Rafaela, essa dinâmica é explicada pelo descolamento entre o ambiente internacional e a realidade fiscal interna. O fluxo de capital estrangeiro tem favorecido ativos de risco, enquanto a política fiscal segue pressionando a curva de juros.
“O cenário externo é relativamente positivo para mercados emergentes, o que sustenta a Bolsa. Mas os juros refletem um quadro fiscal muito desfavorável”, diz.
Para ela, o principal problema não está no resultado fiscal de curto prazo, mas na trajetória da dívida pública.
“Quando olhamos o déficit primário, ele não é tão grave em termos de patamar. O déficit ficou próximo de 0% do PIB no ano passado. O que preocupa é a falta de credibilidade sobre o futuro”, afirma.
Sem ajuste fiscal, juros devem permanecer elevados
Segundo a economista, se nada for feito, a dívida continuará crescendo nos próximos anos, especialmente a partir de 2027, o que mantém os prêmios de risco elevados e dificulta uma queda mais consistente da Selic.
“Sem uma política fiscal crível, o Banco Central fica limitado. A expectativa de queda dos juros existe, mas é muito modesta diante do nível restritivo atual”, avalia.
Apesar disso, Rafaela não acredita que o risco fiscal será tema central nas eleições.
“A maioria dos eleitores não compreende esse risco. É um problema de longo prazo, difícil de ser percebido no dia a dia.”
Ela destaca que indicadores como emprego recorde e inflação em queda geram sensação de bem-estar, reduzindo o espaço político para debates fiscais mais profundos.
Para a economista, independentemente do resultado eleitoral, um novo pacote fiscal será inevitável.
“Sem ajuste, o Brasil seguirá convivendo com juros altos, crescimento baixo e maior vulnerabilidade econômica”, conclui.














