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Operação Arena: entenda o fluxo de R$ 1,5 bilhão investigado no caso Pixbet

PF apura suspeitas de lavagem e evasão em estrutura que passa pela Anspace, Frente Corretora, documentos com dados de 549 mortos e remessas a Curaçao

A prisão preventiva de Diomar Tadeu Dantas de Farias, sócio minoritário da Pixbet, na segunda fase da Operação Arena, trouxe de volta aos holofotes uma investigação sobre suspeitas de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e crimes tributários e financeiros. Mas o ponto central do caso está menos na prisão e mais no caminho percorrido pelo dinheiro.

Diomar foi preso no último dia 17, na Paraíba. A Polícia Federal também cumpriu cinco mandados de busca e apreensão e medidas de sequestro de bens em Campina Grande e João Pessoa. A prisão é cautelar e não representa condenação.

Documentos reunidos na investigação permitem reconstruir parte desse percurso: 1.475 operações da instituição de pagamento Anspace, que somaram R$ 1,54 bilhão, passaram pela Frente Corretora de Câmbio. Documentos utilizados para respaldar parte das transações continham dados de 549 pessoas já falecidas, e as remessas analisadas tinham como destino, em quase sua totalidade, a Pix Star Brasilian N.V., em Curaçao, segundo elementos da investigação divulgados pela revista piauí.

A Frente Corretora, responsável pela etapa cambial dessas operações, foi liquidada pelo Banco Central em 30 de abril de 2026 por comprometimento de sua situação econômico-financeira e “graves violações às normas legais”. O BC, porém, não informou publicamente que a liquidação tenha relação com as operações investigadas na Arena.

A BM&C reconstruiu o fluxo apontado pela investigação para explicar o que já está documentado, o que PF e Receita ainda tentam comprovar e por que o caso pode ter implicações que ultrapassam o mercado de apostas — alcançando câmbio, tributação, ativos digitais e a forma como o Brasil acompanha a entrada e a saída de capitais.

Entenda como começa o fluxo investigado

A primeira fase da Operação Arena foi deflagrada em agosto pela Polícia Federal, em conjunto com o Ministério Público Federal e a Receita Federal.

A Justiça autorizou 17 mandados de busca e apreensão e medidas patrimoniais de até aproximadamente R$ 1 bilhão. A Receita informou ter identificado movimentações financeiras consideradas suspeitas superiores a R$ 2 bilhões entre 2022 e 2025.

Segundo a Receita, os investigadores encontraram indícios da utilização de uma estrutura societária e financeira no Brasil e no exterior que teria sido empregada para conferir aparência de legalidade a operações relacionadas à exploração de apostas.

Uma das linhas da investigação busca determinar se empresas constituídas fora do país foram utilizadas para justificar grandes remessas internacionais apesar de não apresentarem, segundo as autoridades, atividade econômica compatível com os valores movimentados.

A Receita também apura se atividades apresentadas como realizadas no exterior eram, na prática, administradas a partir do Brasil e se houve omissão de rendimentos ou utilização de estruturas empresariais para reduzir ou evitar irregularmente a tributação.

Ter uma empresa no exterior, realizar uma remessa internacional ou utilizar ativos digitais não constitui irregularidade por si só. O que PF, MPF e Receita procuram determinar é se a natureza econômica declarada para as operações correspondia ao que efetivamente ocorreu e se as obrigações cambiais e tributárias foram cumpridas.

Anspace: 1.475 operações e R$ 1,54 bilhão

Um dos principais elos financeiros identificados nos documentos da investigação é a Anspace, instituição de pagamento que aparece como intermediária na movimentação de recursos.

Segundo decisão judicial baseada em informações fornecidas pela própria Frente Corretora, foram identificadas 1.475 operações da Anspace que totalizaram R$ 1.543.573.859.

A maioria foi registrada como operação eFX, relacionada à aquisição de serviços e à modalidade de jogos e apostas.

É nesse conjunto de transações que aparece uma das principais anomalias apontadas pelos investigadores.

Documentos continham dados de 549 pessoas mortas

Parte relevante da documentação utilizada como respaldo cambial para as operações continha dados de 549 pessoas que já haviam falecido, algumas havia mais de duas décadas, segundo elementos da investigação revelados pela piauí.

Os mortos não aparecem simplesmente como apostadores. Seus dados constavam de documentos utilizados para dar suporte às operações cambiais.

Segundo a representação da Polícia Federal consultada pela revista, depois de a Anspace ser informada da inconsistência, a empresa teria apresentado documentos retificados nos quais nomes foram alterados, mas números de CPF pertencentes a pessoas falecidas permaneceram.

Para os investigadores, o episódio é um dos elementos que sustentam a suspeita de que as inconsistências não decorreriam apenas de erro ou fraude de terceiros.

Essa é uma linha da investigação e ainda está sujeita ao contraditório e à análise da Justiça.

A Frente Corretora fazia a etapa cambial

As 1.475 operações da Anspace identificadas na investigação foram realizadas por intermédio da Frente Corretora de Câmbio.

Em 30 de abril de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da instituição.

Na decisão, o BC apontou simultaneamente grave comprometimento da situação econômico-financeira e “graves violações às normas legais” que disciplinavam a atividade da corretora. Também determinou a indisponibilidade dos bens de controladores e ex-administradores.

A Frente tinha baixa representatividade no sistema financeiro. Considerando as operações de 2025, ocupava a 78ª posição no ranking de câmbio do Banco Central e respondia por 0,021% do volume financeiro e 0,054% da quantidade de operações de câmbio cursadas no Sistema Financeiro Nacional.

A presença da corretora nos dois episódios levanta uma questão ainda sem resposta pública: as operações hoje analisadas na Arena estão entre as violações que levaram o Banco Central a liquidar a Frente?

Até agora, o BC não estabeleceu publicamente essa relação.

O que está documentado são dois acontecimentos: a Frente cursou as 1.475 operações da Anspace identificadas pela investigação; separadamente, foi liquidada pelo Banco Central por comprometimento econômico-financeiro e graves violações regulatórias.

O dinheiro chega a Curaçao

A etapa seguinte do fluxo analisado leva ao exterior.

Segundo a representação da PF obtida pela piauí, as operações identificadas tinham como beneficiária, em quase sua totalidade, a Pix Star Brasilian N.V., companhia sediada em Curaçao e relacionada à estrutura internacional da Pixbet.

A investigação tenta determinar se a estrutura estrangeira foi utilizada para conferir aparência internacional a atividades que seriam, segundo a hipótese dos investigadores, efetivamente conduzidas no Brasil.

A Receita afirma que uma das linhas da Operação Arena apura justamente a utilização de empresas no exterior para justificar grandes remessas internacionais apesar de essas companhias não apresentarem, segundo os elementos reunidos pela investigação, atividade econômica compatível com os valores movimentados.

O ponto investigado, portanto, não é a existência da companhia em Curaçao. É a substância econômica das operações: de onde vinha o dinheiro, por que estava sendo remetido, quem era seu beneficiário final e se a operação declarada correspondia ao que efetivamente acontecia.

A investigação também tenta reconstruir o caminho de volta

A PF procura entender não apenas como os recursos teriam deixado o país, mas também o que aconteceu posteriormente.

A Piauí, que teve acesso à representação da Polícia Federal, informou que os investigadores identificaram R$ 114,7 milhões em repasses atribuídos pela documentação da Pix Star a 12 prestadores.

A PF apura se as notas fiscais e os pagamentos correspondiam aos serviços declarados ou se parte dessas operações teria sido utilizada para justificar a entrada de recursos no Brasil.

Outras reportagens baseadas na investigação também relatam aquisição de criptoativos, remessas ao exterior e posterior retorno de parte dos recursos ao país, inclusive por meio de dividendos.

Pagamentos internacionais, dividendos e notas fiscais são operações regulares e não constituem, isoladamente, indício de lavagem.

A questão investigada é se havia substância econômica nas transações declaradas e se ocorreu eventual ocultação ou dissimulação da origem, propriedade ou destino dos recursos.

Entre as relações financeiras examinadas pela PF está o escritório Nelson Wilians Advogados.

Segundo reportagem da piauí, que teve acesso à representação da Polícia Federal, a investigação encontrou 15 notas fiscais que somavam R$ 37,8 milhões envolvendo a Pix Star Brasilian N.V. e o escritório. Cerca de R$ 10 milhões teriam sido efetivamente pagos, de acordo com comprovantes localizados pelos investigadores.

A PF apura a natureza econômica dessas transações e outras relações empresariais e patrimoniais entre Nelson Wilians e Ernildo Júnior, controlador da Pixbet.

A revista informou ainda que Wilians e Ernildo foram sócios da XBank Digital Soluções em Pagamentos, criada em 2023. Wilians afirma que a fintech nunca chegou a operar e foi encerrada em junho de 2025.

O escritório Nelson Wilians Advogados nega irregularidades.

A defesa de Nelson Wilians afirmou que sua relação com a Pixbet era “estritamente profissional”, decorrente da prestação de serviços jurídicos, e que a atuação do escritório se limitou ao exercício regular da advocacia. Também sustentou que as atividades atribuídas a um cliente não podem ser confundidas com a atuação profissional de seus advogados.

Justiça cita US$ 271,5 milhões em possível evasão

A dimensão internacional do caso aparece em decisão da 4ª Vara Federal da Paraíba.

Com base em dados financeiros e fiscais reunidos na investigação, a decisão registra estimativa de pelo menos US$ 271,5 milhões em atos sob suspeita de evasão de divisas ao longo de cinco anos — montante próximo de R$ 1,5 bilhão na conversão utilizada no processo.

O valor é uma estimativa baseada nos elementos da investigação. Não representa prejuízo definitivamente reconhecido pela Justiça nem condenação.

Onde entram os ativos digitais

Os ativos digitais aparecem em outra dimensão da Operação Arena.

A Receita afirma oficialmente que a estrutura examinada envolve empresas brasileiras e estrangeiras, instituições de pagamento, operações de câmbio, ativos digitais e outras estruturas financeiras.

Reportagens baseadas nos elementos da investigação relatam também aquisição de criptoativos e stablecoins nos fluxos analisados pelas autoridades.

Há uma distinção importante: não há informação pública que permita afirmar que os R$ 1,54 bilhão das 1.475 operações Anspace-Frente tenham sido movimentados integralmente em stablecoins.

Stablecoins são ativos digitais projetados para acompanhar o valor de outro ativo. O USDT, por exemplo, busca manter paridade com o dólar.

Seu uso é legal. O desafio para autoridades monetárias e fiscais está em identificar quem envia os recursos, quem recebe, qual é o beneficiário final e qual é a natureza econômica de uma transferência internacional realizada por esses instrumentos.

Stablecoins já movimentam dezenas de bilhões de reais por mês

O tamanho desse mercado ajuda a explicar por que a discussão ultrapassa a Operação Arena.

Dados divulgados pela Receita Federal mostram que, entre agosto de 2019 e dezembro de 2025, foram declarados aproximadamente R$ 1,58 trilhão em operações com os principais criptoativos no Brasil.

Desse total, cerca de R$ 1,13 trilhão envolveu stablecoins. Em 2025, esses ativos passaram a representar aproximadamente 80% do volume mensal declarado de criptoativos.

O USDT concentrou 88,7% do volume de stablecoins registrado no período, aproximadamente R$ 1 trilhão em transações. Em novembro de 2025, o volume mensal declarado de operações com stablecoins chegou a R$ 39,7 bilhões.

Esses números não representam saída de capital do Brasil. Incluem compras, vendas, negociações domésticas e outras operações.

Mostram, porém, a dimensão alcançada por ativos referenciados a moedas fiduciárias — especialmente ao dólar — dentro da infraestrutura financeira brasileira.

Por que isso importa para câmbio e fluxo de capitais

Em uma remessa internacional tradicional, a transferência passa pela infraestrutura regulada do mercado de câmbio.

Com ativos digitais, a arquitetura pode ser diferente: reais podem ser convertidos em uma stablecoin e o ativo posteriormente transferido por blockchain para uma carteira ou contraparte no exterior.

Isso não significa que a demanda econômica por dólar desapareça. Exchanges, market makers e provedores de liquidez conectam reais, dólares e stablecoins por meio de arbitragem e operações de hedge.

A questão econômica está principalmente na identificação e classificação correta do fluxo: saber se determinada movimentação representa pagamento, investimento, transferência patrimonial ou outra operação internacional.

O Banco Central ampliou esse perímetro regulatório em 2026. A Resolução BCB 521 passou a enquadrar pagamentos e transferências internacionais realizados com ativos virtuais no mercado de câmbio e estabeleceu regras específicas de identificação e prestação de informações.

Ao apresentar a nova regulamentação, o BC afirmou que as medidas buscam, entre outros objetivos, reduzir possibilidades de arbitragem regulatória e resguardar as estatísticas e as contas nacionais afetadas por essas operações.

O que ainda precisa ser esclarecido

A Operação Arena permanece em andamento. As prisões e demais medidas cautelares adotadas durante a investigação não representam condenação.

Também permanece sem resposta pública se as operações da Anspace identificadas na Arena têm relação com as violações mencionadas pelo Banco Central ao liquidar a Frente Corretora.

O que os documentos conhecidos permitem reconstruir é um fluxo de 1.475 operações da Anspace por intermédio da Frente, somando R$ 1,54 bilhão; documentação cambial contendo dados de 549 pessoas falecidas; remessas destinadas a estruturas no exterior; e uma investigação que também alcança ativos digitais e o posterior destino de recursos.

Para o mercado financeiro, a discussão ultrapassa a eventual responsabilização criminal dos envolvidos.

Em um sistema no qual dinheiro pode atravessar fronteiras por bancos, instituições de pagamento ou blockchain, a capacidade de identificar de onde o capital sai, para onde vai e sob qual natureza econômica retorna passa a ser parte da própria leitura sobre o setor externo brasileiro.

E isso interessa diretamente ao investidor: a qualidade das informações sobre fluxo de capitais influencia a análise de balanço de pagamentos, risco externo, oferta e demanda por moeda estrangeira e, em última instância, a formação de preços dos ativos brasileiros.

O que dizem os citados

Nelson Wilians Advogados: em manifestação, a defesa nega irregularidades e afirma que sua relação com a Pixbet era “estritamente profissional”, decorrente da prestação de serviços jurídicos. A defesa sustentou que a atuação do escritório se limitou ao exercício regular da advocacia.

Pixbet/Ernildo Júnior: não conseguimos contato com Ernildo Júnior para comentar as conclusões da investigação apresentadas pela revista.

Anspace: não foi localizada, nas fontes públicas consultadas para esta reportagem, manifestação específica da empresa sobre as 1.475 operações ou sobre a documentação com dados de pessoas falecidas.

Frente Corretora: o Banco Central informou, ao decretar a liquidação extrajudicial, que a instituição apresentava comprometimento econômico-financeiro e graves violações às normas legais e regulamentares. O BC não estabeleceu publicamente relação entre a liquidação e as operações analisadas na Operação Arena.

Operação Arena: entenda o fluxo de R$ 1,5 bilhão investigado no caso Pixbet
Operação Arena da Polícia Federal (Foto: Divulgação / PF)