O mercado financeiro inicia esta quinta-feira (22) atento a uma combinação de agenda macroeconômica relevante, divulgação de balanços corporativos nos Estados Unidos e novos ruídos geopolíticos envolvendo o governo de Donald Trump. No Brasil, os investidores acompanham dados fiscais e decisões do Conselho Monetário Nacional (CMN), enquanto no exterior o foco recai sobre indicadores de inflação e atividade da maior economia do mundo.
No cenário doméstico, a Receita Federal divulga às 11h os dados de arrecadação, enquanto às 15h ocorre a reunião do CMN, que reúne o ministro da Fazenda, o presidente do Banco Central e a ministra do Planejamento. As decisões do colegiado costumam ser acompanhadas de perto pelo mercado por seu impacto sobre regras fiscais, diretrizes de crédito e instrumentos de política econômica.
Nos Estados Unidos, a agenda concentra indicadores de peso. Às 10h30, será divulgada a leitura final do PIB do terceiro trimestre, seguida, ao meio-dia, pelo PCE de novembro, índice de inflação preferido do Federal Reserve. Também estão previstos os dados semanais de pedidos de auxílio-desemprego e os estoques de petróleo, que podem influenciar a precificação de commodities e expectativas sobre crescimento.
Balanços corporativos no radar do mercado
Além dos dados macro, o mercado acompanha a temporada de resultados corporativos. Antes da abertura de Wall Street, divulgam balanço GE Aerospace e Procter & Gamble. Após o fechamento, será a vez de Intel e Alcoa, dois nomes relevantes para os setores de tecnologia e commodities.
Os números da Intel são particularmente observados após o forte movimento de recuperação das ações nos últimos meses, impulsionado por expectativas de avanço em data centers e chips voltados à inteligência artificial. Já a Alcoa serve como termômetro para a demanda global por metais e para o ciclo industrial.
Groenlândia e OTAN: gesto político reforça ruído geopolítico
No campo geopolítico, investidores ainda digerem as declarações de Donald Trump sobre a existência de uma suposta “estrutura de acordo” envolvendo Groenlândia, OTAN e países europeus, construída após conversa com o secretário-geral da aliança, Mark Rutte.
Até o momento, não houve confirmação formal por parte da OTAN nem de líderes europeus. As manifestações oficiais do bloco foram cautelosas e se concentraram apenas no recuo tarifário anunciado por Washington. Para o mercado, o episódio foi interpretado mais como um gesto político do que como um acordo efetivamente estruturado, mantendo o tema como fonte de incerteza no cenário internacional.
Suprema Corte sinaliza proteção à independência do Fed
Outro fator que contribuiu para um ambiente mais construtivo em Wall Street foi a sinalização da Suprema Corte dos Estados Unidos de que Lisa Cook deve permanecer como diretora do Federal Reserve, após tentativas de destituição associadas ao entorno político de Trump.
Ministros da Corte demonstraram ceticismo quanto à interferência direta do Executivo sobre a autoridade monetária e fizeram referências explícitas à importância da independência do Fed. A presença simbólica de Jerome Powell, atual chairman, e do ex-presidente do Fed, Ben Bernanke, reforçou o peso institucional do momento.
A leitura do mercado foi de que houve um freio às investidas políticas sobre a política monetária, reduzindo o risco de rupturas abruptas na condução dos juros nos Estados Unidos.
Disputa pelo comando do Fed entra no radar do mercado
Apesar disso, Trump voltou a criticar Powell e afirmou que já tem um nome definido para substituí-lo no futuro. Kevin Warsh segue como principal favorito, enquanto Rick Rieder, CIO da BlackRock, ganhou espaço após elogios públicos do presidente.
O tema permanece no radar como um vetor potencial de volatilidade, especialmente à medida que se aproximam definições sobre a próxima liderança do banco central americano.
Acordo Mercosul–UE pode ser adiado
No front europeu, o Parlamento Europeu levou o acordo Mercosul–União Europeia à Corte de Justiça da UE, o que pode congelar sua implementação. A expectativa é de que o Brasil tente acelerar a aprovação interna no Mercosul, enquanto a alternativa mais provável seria uma vigência temporária do tratado.
O desfecho é considerado relevante para setores exportadores e para o fluxo estrutural de investimentos no Brasil, sobretudo em áreas como agronegócio, indústria e infraestrutura.
Brasil: câmbio, juros e política
No mercado doméstico, o dólar recuou para R$ 5,32, menor nível desde o episódio conhecido como “Flávio Day”. A curva de juros futuros devolveu prêmio ao longo de todos os vencimentos, refletindo melhora marginal na percepção de risco.
A movimentação também foi influenciada por pesquisa eleitoral que mostrou redução da vantagem do presidente Lula, fator que contribuiu para aliviar o câmbio e reforçar o fluxo de capital estrangeiro para ativos brasileiros.
Com agenda cheia, balanços relevantes e um pano de fundo político e geopolítico ainda instável, o dia tende a ser marcado por volatilidade seletiva, com investidores calibrando posições à espera de novos sinais sobre crescimento, inflação e condução da política econômica global.













