A recente queda do dólar frente ao real tem chamado a atenção do mercado financeiro, mas o movimento não é pontual. Segundo análise de Cauê Valim, analista de alocação e inteligência da Avenue, trata-se de um processo que vem ocorrendo ao longo dos últimos meses e está diretamente relacionado à entrada de capital estrangeiro em mercados emergentes, especialmente no Brasil.
O câmbio passou a operar em níveis mais baixos desde 2024, enquanto o real se destacou entre as moedas latino-americanas. Para o especialista, a explicação principal está no fluxo internacional de recursos.
“A gente está vendo um fluxo de capital internacional entrando no Brasil e em mercados emergentes como um todo. Essa queda do dólar frente ao real é influenciada principalmente por essa entrada de capital estrangeiro”, afirma Valim.
Fluxo estrangeiro explica queda do dólar frente ao real
Dados recentes apontam entrada relevante de investidores externos no país. Em janeiro, houve ingresso líquido de aproximadamente US$ 3,8 bilhões em ações brasileiras e cerca de US$ 7 bilhões em títulos públicos.
Esse movimento cria um efeito direto sobre o câmbio: o investidor estrangeiro precisa converter dólares em reais para comprar ativos locais, aumentando a oferta da moeda americana no país e pressionando sua cotação para baixo.
Além do câmbio, a bolsa também é beneficiada.
“Isso favorece tanto a Bolsa brasileira quanto o fortalecimento do real, porque o investidor precisa trazer recursos para adquirir ações e títulos emitidos pelo governo”, explica o analista.
Diferencial de juros coloca Brasil no radar global
Outro fator determinante é o nível de juros doméstico. O Brasil permanece entre os países com juros reais mais elevados do mundo, o que torna os investimentos locais atraentes para o capital global.
Segundo Valim, dentro da chamada “cesta de emergentes”, o país aparece como uma alternativa relevante de retorno.
“O Brasil é enxergado com bons olhos pelo investidor global por causa do diferencial de juros ainda elevado. Isso acaba tornando o país uma escolha dentro dos mercados emergentes”, diz.
Esse fenômeno é conhecido no mercado como carry trade, estratégia em que investidores tomam recursos em países de juros baixos e aplicam onde a remuneração é maior.
Menor ruído político também influencia queda do dólar
O início do ano com menor volatilidade política também contribuiu para a valorização cambial, reduzindo a percepção de risco país no curto prazo.
“Um ambiente com menos ruído político também influencia positivamente o fortalecimento do real”, acrescenta o especialista.
Não é enfraquecimento estrutural do dólar
Apesar da queda, a análise aponta que o movimento não indica perda de força estrutural da moeda americana no mundo.
Segundo Valim, parte da desvalorização ocorre porque investidores estão buscando retorno fora dos Estados Unidos neste momento e não por uma deterioração da economia americana.
“Não tem nada a ver com perda de hegemonia do dólar. A moeda continua sendo a principal reserva global. O que existe é uma menor demanda de curto prazo diante de oportunidades melhores em outros mercados”, afirma.
Rotação global de capital
Para o analista, o cenário atual deve ser interpretado como uma realocação internacional de portfólio.
“Basicamente não é uma mudança estrutural. É uma realocação pontual de recursos para mercados emergentes, e o Brasil se beneficia por oferecer um diferencial de juros maior.”
Ou seja, a queda do dólar depende da continuidade desse fluxo. Mudanças na política monetária americana, redução dos juros brasileiros ou aumento do risco doméstico podem alterar a tendência.













