A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de indicar Otto Lobo para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) reacendeu o debate sobre a autonomia do principal órgão regulador do mercado de capitais brasileiro. A escolha, anunciada nesta quarta-feira (7), ocorreu mesmo sem o apoio da equipe econômica do governo e foi recebida com ressalvas por especialistas e representantes do mercado.
A indicação ocorre em meio a críticas do mercado a decisões anteriores de Otto Lobo, especialmente no caso envolvendo a Ambipar, quando o então diretor da CVM votou contra a obrigatoriedade de uma Oferta Pública de Aquisição (OPA). O episódio é citado por agentes do mercado como um dos pontos que levantam questionamentos sobre a condução regulatória e o impacto de suas decisões sobre a proteção a acionistas minoritários.
A CVM é uma autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, mas possui autonomia financeira, orçamentária e administrativa. Cabe ao órgão regular e fiscalizar o mercado de valores mobiliários, incluindo ações, títulos e contratos de investimento coletivo, públicos e privados. Por isso, a independência de sua liderança é considerada um elemento central para a credibilidade do mercado de capitais.
Disputa política marcou a escolha
A nomeação foi resultado de uma disputa interna entre o Senado Federal, liderado pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil), parlamentares do centrão e a equipe econômica do governo, que defendia outro nome para o comando da CVM.
Um acordo prévio com o governo previa que dois dos diretores da CVM seriam indicados pelo Congresso, mas o Senado pressionou para ampliar sua influência e também indicar o presidente da autarquia. Otto Lobo acabou sendo o nome apoiado pelo grupo.
Lobo integrou a diretoria da CVM entre 2021 e o fim de 2025, indicado ainda durante o governo Jair Bolsonaro. Em 2025, chegou a exercer a presidência interina da comissão, após a renúncia de João Pedro Nascimento, dois anos antes do término do mandato.
Instituto Empresa critica indicação
A escolha não foi bem recebida por entidades ligadas ao mercado. Em nota, o Instituto Empresa manifestou preocupação com o que classificou como uma indicação orientada mais por critérios políticos do que técnicos.
“A nomeação de dirigentes por afinidade política, ainda que legal, pode minar a percepção de autonomia regulatória e fragilizar a credibilidade do Brasil diante de investidores domésticos e internacionais”, afirmou Eduardo Silva, presidente do Instituto Empresa.
Segundo a entidade, em um momento em que o mercado de capitais busca ampliar sua relevância, com maior participação de empresas e investidores individuais, é essencial que órgãos reguladores sejam liderados por profissionais escolhidos com base em mérito, independência e compromisso com as melhores práticas de governança.
“O Instituto Empresa reforça que a independência da regulação é um pilar para um ambiente de negócios estável e previsível, condição essencial para atrair investimentos, proteger acionistas e fortalecer a governança corporativa no Brasil”, conclui Silva.
Governo defende perfil técnico
Em resposta às críticas, a Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que Otto Lobo possui currículo acadêmico e profissional compatível com a função e com a responsabilidade do cargo. Segundo o governo, a indicação respeita os critérios legais e institucionais.
O nome de Otto Lobo ainda será submetido à sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, etapa obrigatória antes da confirmação definitiva no cargo.
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