O Ibovespa pode se aproximar da marca dos 200 mil pontos em 2026, impulsionado principalmente pela perspectiva de queda dos juros, pela recuperação gradual das commodities e por um ciclo mais favorável de lucros corporativos. É o que aponta a avaliação de Fernando Siqueira, da Eleven Research, em entrevista à BM&C News.
De acordo com Siqueira, o cenário é considerado factível dentro de um ambiente macroeconômico mais benigno para ativos de risco. A casa trabalha atualmente com um cenário-base de 175 mil pontos para o Ibovespa em 2026 e um cenário otimista de 190 mil pontos, mas não descarta níveis ainda mais elevados caso algumas variáveis se mostrem mais favoráveis do que o esperado.
“Historicamente, o mercado brasileiro tem desempenho ruim quando os juros estão subindo, razoável quando estão estáveis e muito bom quando estão caindo. Se os juros caírem mais do que o previsto e ficar claro que esse ciclo se estende também para 2027, dá, sim, para falar em algo perto de 190 mil ou até 200 mil pontos”, afirmou.
Juros como principal motor do Ibovespa
Na avaliação da Eleven, o comportamento da taxa de juros segue como o principal vetor estrutural para o desempenho do Ibovespa. Empresas mais sensíveis ao ciclo doméstico, como consumo, construção e serviços, tendem a se beneficiar diretamente de um ambiente de crédito mais barato, com impacto positivo sobre receitas, margens e valuation.
Siqueira lembra que projeções semelhantes feitas no passado acabaram se confirmando. Em 2025, por exemplo, o cenário-base da casa era de 150 mil pontos e o otimista, de 160 mil níveis que acabaram sendo alcançados pelo índice ao longo do ano.
“Na época parecia algo pouco realista, mas as contas já mostravam que era possível. Hoje, falar em 180, 190 ou até 200 mil pontos já não soa mais tão fora da realidade”, destacou.
Commodities: pouco downside e possível retomada
Outro fator relevante para o Ibovespa é o comportamento das commodities, que tiveram um desempenho mais fraco ao longo de 2025, especialmente nos segmentos de petróleo, celulose e parte do agronegócio. Segundo Siqueira, o ciclo negativo parece ter se esgotado.
“Os preços das commodities vêm caindo desde 2021 ou 2022. A nossa impressão é que tem muito pouco downside. Se houver algum upside, isso se soma ao efeito positivo da queda dos juros e reforça o potencial do índice”, explicou.
A Eleven avalia que mineração pode apresentar desempenho relativamente melhor do que petróleo, enquanto o segmento de celulose ainda enfrenta um cenário internacional mais desafiador.
Temporada de resultados reforça viés positivo para o Ibovespa
A temporada de resultados do quarto trimestre de 2025 também aparece como um elemento de sustentação para o otimismo com o Ibovespa. Para Siqueira, apesar de um ano mais fraco para empresas ligadas a commodities, o bloco de companhias não diretamente expostas a esse setor apresentou crescimento consistente de lucros.
“Se você dividir o Ibovespa entre empresas de commodities e não commodities, a parte de commodities foi um ano relativamente ruim, mas o resto foi um ano bom. São empresas que quase sempre entregam crescimento de lucro”, afirmou.
Entre os destaques positivos citados pelo estrategista estão distribuição de combustíveis, saúde, bancos e alguns nomes do varejo, como a Vivara. Já o setor de vestuário tende a apresentar um quarto trimestre mais fraco, segundo a análise.
Construtoras e rotação setorial
No segmento de construção civil, a avaliação da Eleven é de que os resultados operacionais não foram ruins, mas parte das ações sofreu correção por conta de uma rotação setorial dentro da bolsa, com investidores migrando temporariamente de papéis domésticos para commodities.
A casa mantém preferência por empresas maiores e mais consolidadas, como a Cyrela, além de exposição ao segmento de baixa renda, como a Tenda, por considerá-lo menos sensível ao ciclo de juros.
“A queda das ações foi menos por causa das prévias operacionais e mais por causa do ambiente. Em um cenário internacional mais arriscado, empresas maiores tendem a se segurar melhor”, disse Siqueira.
Perspectiva estrutural para o Ibovepsa
Na visão da Eleven, a combinação de juros em trajetória de queda, lucros resilientes e potencial de recuperação das commodities cria um pano de fundo estruturalmente favorável para o Ibovespa nos próximos anos.
“Se juntarmos o efeito positivo da queda dos juros sobre as empresas domésticas com algum upside nas commodities, existe espaço, sim, para o Ibovespa buscar patamares próximos de 200 mil pontos em 2026”, concluiu Siqueira.












