A Bolsa brasileira segue travada em meio a um cenário que combina saída de capital estrangeiro, resultados corporativos abaixo do esperado e peso crescente do risco fiscal doméstico. Para Gustavo Bertotti, analista convidado pela BM&C News, o momento exige atenção redobrada: a aparente desvalorização dos ativos pode esconder uma armadilha, não uma oportunidade.
A B3 enfrenta forte dependência do fluxo estrangeiro justamente quando esse capital migra para outras geografias. Segundo Bertotti, o movimento não é isolado — reflete uma dinâmica global que penaliza emergentes.
Capital estrangeiro foge enquanto tecnologia americana brilha
A valorização das empresas de tecnologia nos Estados Unidos, impulsionada pela tese de inteligência artificial, tem promovido uma rotação global de investimentos que desfavorece mercados emergentes. O resultado da NVIDIA, destacado por Bertotti, funciona como bússola para esse movimento: quanto mais forte a narrativa tecnológica americana, menor o apetite por ativos de risco em países como o Brasil.
Agosto registrou forte saída de capital estrangeiro da B3. O fenômeno, segundo Bertotti, é potencializado por riscos geopolíticos e pela percepção de que o Brasil não oferece, no curto prazo, a previsibilidade necessária para atrair grandes investidores institucionais. O problema não é o preço, é a previsibilidade.
Temporada de resultados expõe fragilidade de lucros e margens
A abertura da temporada de balanços do segundo trimestre trouxe números que, na média, vieram abaixo das expectativas. Bertotti aponta fragilidade de Ebit e lucros em diversos setores, o que revela uma economia operando sob pressão. Juros altos, endividamento corporativo elevado e renegociações de dívidas no curto prazo compõem um quadro de deterioração da capacidade de geração de caixa das empresas.
Empresas têm revisado capex e planos de investimento até os próximos anos. A análise de Bertotti indica que o ciclo de expansão esperado para o pós-pandemia não se materializou. Setores como óleo e gás, financeiro e utilities chamaram atenção, mas as assimetrias identificadas não são suficientes para sustentar um movimento amplo de alta na Bolsa.
O custo crescente das operações também preocupa. Bertotti menciona riscos adicionais ao consumo e às empresas, como a discussão em torno da escala 6×1, que pode elevar despesas trabalhistas e comprimir ainda mais margens já pressionadas.
Risco fiscal e político ganham peso na precificação dos ativos
O risco fiscal brasileiro deixou de ser pano de fundo e passou a ocupar o centro das decisões de alocação. Na leitura de Bertotti, o mercado não reage ao discurso, reage ao risco. As expectativas de corte de juros no curto prazo esbarram na falta de convergência das contas públicas e na ausência de sinalizações críveis sobre controle de gastos.
O IPCA-15 e outros indicadores de inflação seguem monitorados, mas a questão fiscal tem ganhado peso maior na formação de preços dos ativos. Investidores estrangeiros, em particular, enxergam o Brasil como um ativo de risco elevado em um momento em que alternativas mais seguras — e até mais rentáveis — estão disponíveis em outras geografias.
Buscar oportunidades exige monitorar mais do que múltiplos
A Bolsa brasileira pode até parecer barata em termos de múltiplos, mas a armadilha está em ignorar os fundamentos deteriorados e a ausência de catalisadores claros para reversão do quadro. Bertotti reforça que o investidor precisa monitorar não apenas valuation, mas também fluxo de capital, qualidade dos resultados corporativos, trajetória fiscal e riscos geopolíticos. O Excel fecha. O caixa é que cobra.
Assista à entrevista completa da BM&C News neste link: https://www.youtube.com/watch?v=D0SpZsquckw
