A discussão sobre uma possível bolha da inteligência artificial voltou ao centro das atenções dos investidores após oscilações recentes nas ações de tecnologia. O avanço acelerado dos investimentos em IA, somado às altas expressivas das big techs nos últimos anos, levou o mercado a questionar se a valorização dos ativos reflete fundamentos econômicos ou expectativas excessivamente otimistas.
Para o economista Bruno Corano, a resposta não é simples: há sinais de exagero em alguns segmentos, mas não um desequilíbrio sistêmico como o observado na virada do milênio.
Segundo ele, sempre que surge uma tecnologia com potencial de ganho de produtividade relevante, ocorre um movimento semelhante no mercado financeiro.
“Todas as vezes que temos o surgimento de uma nova tecnologia que promete aumento de produtividade e retorno financeiro, o mercado antecipa esse crescimento e os preços dos ativos sobem rapidamente”, afirmou.
O economista compara o momento atual ao de outras transformações econômicas importantes, como a expansão das ferrovias e, principalmente, a bolha da internet no fim dos anos 1990. A principal diferença, porém, está na qualidade das empresas envolvidas.
“Na bolha da internet, mais de 75% das companhias tinham pouca ou nenhuma geração de caixa. Muitas eram deficitárias. Quando acabou a liquidez, a bolha estourou”, explicou.
Big techs reduzem o risco da bolha da inteligência artificial
Hoje, o cenário é distinto. A maior parte dos investimentos em inteligência artificial está concentrada em empresas consolidadas e altamente capitalizadas.
“Os investimentos estão sendo feitos por grandes players, companhias que acumulam bilhões em caixa há anos. Uma empresa como Google ou Tesla investir dezenas de bilhões em inteligência artificial é completamente diferente de startups sem receita fazendo promessas”, disse.
De acordo com Corano, esse fator reduz o risco de uma crise estrutural no mercado acionário global. Mesmo que os retornos da IA fiquem abaixo das expectativas, as empresas ainda teriam capacidade financeira para absorver o impacto.
Correção não significa estouro
O economista destaca que a recente volatilidade nas ações de tecnologia não deve ser interpretada automaticamente como o estouro de uma bolha. Para ele, o movimento atual se aproxima mais de uma reprecificação.
“Pode haver correção, sim. Mas correção não é necessariamente uma grande bolha estourando”, afirmou.
Outro elemento que diferencia o momento atual do início dos anos 2000 é a ausência de valorização generalizada nos mercados. Na época da bolha da internet, praticamente todos os ativos subiam simultaneamente. Hoje, o comportamento é mais concentrado.
“As big techs estão muito valorizadas, enquanto grande parte dos ativos tradicionais segue depreciada. Não é um fenômeno espalhado pela economia”, explicou.
Ele cita empresas industriais e de consumo tradicionais como exemplos de setores que não acompanharam o mesmo ritmo de valorização das companhias ligadas à tecnologia, o que reforça a leitura de um desequilíbrio setorial e não sistêmico.
Produtividade é a chave
Apesar das incertezas, Corano avalia que a inteligência artificial representa uma mudança estrutural relevante. O potencial de aumento de produtividade pode justificar parte da valorização das empresas do setor.
A diferença em relação ao passado, segundo ele, está na aplicabilidade imediata da tecnologia. Hoje, softwares de automação, geração de código e análise de dados já estão sendo utilizados em larga escala por empresas e profissionais.
“Agora as máquinas falam a linguagem dos homens. Pessoas sem conhecimento técnico já conseguem criar aplicativos e automatizar processos. Isso tem impacto econômico real”, afirmou.
Ainda assim, ele pondera que o mercado pode ter antecipado parte desse crescimento.
“O mercado sempre se antecipa ao resultado. A dúvida é se a velocidade de geração de receitas vai acompanhar o tamanho das expectativas”, disse.
Bolha da inteligência artificial com limitações
Na avaliação do economista, portanto, a bolha da inteligência artificial existe, mas de forma limitada.
“É uma bolha pequena, setorizada. Não é uma grande bolha global”, concluiu.
Para investidores, o recado é de cautela: a inteligência artificial tende a permanecer como uma das principais tendências econômicas da próxima década, mas isso não impede ajustes de preços ao longo do caminho.













