O Brasil chega à segunda metade de 2026 combinando aumento do investimento estrangeiro com um mercado de capitais que registra volumes recordes de financiamento. Os números mostram que o país continua no radar dos investidores internacionais e, ao mesmo tempo, amplia os instrumentos disponíveis para transformar recursos em projetos, infraestrutura e expansão das empresas.
Nos 12 meses encerrados em junho, os investimentos diretos no país (IDP) somaram US$ 89,3 bilhões, equivalentes a 3,58% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Banco Central. Um ano antes, esse volume estava em US$ 68,5 bilhões. Somente em junho de 2026, os ingressos líquidos chegaram a US$ 9,1 bilhões, quase três vezes os US$ 3,1 bilhões registrados no mesmo mês de 2025.
No mercado doméstico, o movimento também ganhou escala. As ofertas no mercado de capitais atingiram R$ 361,8 bilhões no primeiro semestre, maior valor para o período desde o início da série histórica da Anbima, em 2012. Foram 1.513 operações, alta de 13% em relação aos primeiros seis meses do ano passado, enquanto o volume financeiro cresceu 9,8%.
Os dados ajudam a dimensionar uma questão central para a atração de investimentos: além de receber recursos, o país precisa oferecer condições e canais para que o capital possa financiar projetos de longo prazo.
Para Fernando Honorato, coordenador do Grupo Consultivo Macroeconômico da Anbima, o Brasil parte de uma posição que reúne vantagens importantes na disputa internacional por recursos.
“O Brasil não é só mais um país desse ponto de vista. Acho que nós temos atributos que nos diferenciam”, afirmou durante participação no programa BM&C Visões.
O que torna o Brasil competitivo na atração de investimentos?
A disponibilidade de energia, a produção de alimentos e commodities e a escala do mercado doméstico colocam o Brasil em setores que devem demandar volumes elevados de investimentos nas próximas décadas.
Honorato destaca ainda uma característica que ganhou importância diante da fragmentação do comércio internacional: a capacidade brasileira de manter relações econômicas com diferentes regiões.
O país negocia com mercados da Ásia, Oriente Médio, Europa e América Latina, enquanto a reorganização das cadeias globais aumenta a busca por fornecedores e parceiros comerciais considerados estratégicos.
Energia aparece como outra frente relevante. Além da produção de petróleo, o Brasil possui uma matriz com presença significativa de fontes renováveis em um momento em que a demanda global por eletricidade tende a crescer com a expansão de data centers e da inteligência artificial.
No mercado de capitais, esse vínculo entre recursos financeiros e economia real já aparece nos números.
As emissões de debêntures somaram R$ 169,8 bilhões no primeiro semestre. As debêntures incentivadas responderam por 38,3% desse volume, e o setor de energia elétrica concentrou 52,9% dessas emissões.
A negociação de debêntures no mercado secundário também aumentou 20,6% e alcançou R$ 494,6 bilhões entre janeiro e junho. O crescimento da liquidez é relevante porque facilita a entrada e a saída de investidores e contribui para a formação de preços dos ativos.
Como o mercado de capitais amplia o financiamento?
O recorde das ofertas mostra uma mudança na estrutura de financiamento das empresas brasileiras.
Dos R$ 361,8 bilhões captados no primeiro semestre, R$ 288,8 bilhões vieram de instrumentos de renda fixa. Mas a expansão não ficou concentrada em uma única classe de ativos.
As ofertas de fundos imobiliários chegaram a R$ 39,5 bilhões, alta de 103,9% em um ano, enquanto as emissões de Fiagros atingiram R$ 8,3 bilhões, crescimento de 288,3%. Os follow-ons, por sua vez, movimentaram R$ 22,2 bilhões.
Para Honorato, essa diversificação ajuda a explicar por que a disponibilidade de instrumentos deixou de ser um dos principais obstáculos para o financiamento da economia.
O executivo avalia que o país construiu, ao longo dos últimos anos, uma estrutura com diferentes produtos destinados ao crédito empresarial, à infraestrutura e a outras necessidades de financiamento.
“Eu não vejo qualquer restrição do lado do mercado de capitais em financiar a infraestrutura do Brasil”, afirmou.
O desenvolvimento também aparece na capacidade de financiar prazos maiores. Segundo Honorato, emissões corporativas de cinco ou dez anos eram muito menos frequentes uma década atrás. Fundos estruturados e operações de prazo mais longo passaram a ocupar mais espaço no mercado brasileiro.
O capital internacional também encontra novos canais?
O mercado externo voltou a ganhar importância nas estratégias de financiamento.
As emissões realizadas por emissores brasileiros no exterior chegaram a US$ 24,8 bilhões no primeiro semestre de 2026, maior volume para o período desde 2014, segundo a Anbima. Empresas não financeiras captaram US$ 7,7 bilhões, enquanto instituições financeiras levantaram US$ 2,5 bilhões.
O movimento ocorre paralelamente ao avanço do investimento direto registrado pelo Banco Central e reforça a presença de diferentes fontes de recursos disponíveis para a economia brasileira.
Essa combinação entre capital estrangeiro e mercado doméstico é importante porque projetos de infraestrutura, energia, tecnologia e expansão industrial exigem volumes de financiamento que dificilmente dependem de uma única fonte.
O que ainda falta para transformar capital em projetos?
A existência de recursos e instrumentos, porém, não significa que todos os projetos conseguirão financiamento.
Infraestrutura de transportes, segurança jurídica, complexidade tributária e previsibilidade regulatória aparecem entre os fatores considerados por investidores na decisão de comprometer recursos por períodos mais longos.
Honorato avalia que justamente a combinação desses obstáculos pode reduzir a competitividade brasileira frente a outros destinos de capital. Para ele, a disputa não deve ser analisada apenas dentro da América Latina ou entre países emergentes.
“O Brasil está disputando o capital com o planeta”, afirmou.
Ao mesmo tempo, os números de 2026 indicam que tanto a atração de investimentos quanto a capacidade doméstica de financiamento continuam avançando. O desafio passa a ser conectar essa disponibilidade de recursos aos setores nos quais o país possui demanda e vantagens competitivas.
Mais do que captar dinheiro, ampliar a atração de investimentos significa criar condições para que esses recursos sejam convertidos em infraestrutura, capacidade produtiva, tecnologia e crescimento das empresas. Nesse processo, o mercado de capitais ganha espaço como uma das pontes entre a poupança dos investidores e os projetos que demandam financiamento de longo prazo.
