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INVESTIMENTOS E FINANÇAS

Selic alta não elimina riscos: estudo da FGV defende diversificação internacional do patrimônio

Levantamento apresentado no Avenue Connection, em São Paulo, mostra que juros elevados não protegem integralmente o investidor contra inflação, câmbio e concentração de patrimônio no Brasil

A diversificação internacional continua sendo necessária mesmo em períodos de Selic elevada. Essa é uma das principais conclusões de um estudo do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef), apresentado durante o Avenue Connection, em São Paulo.

Segundo a pesquisa, os juros elevados podem oferecer retorno nominal e liquidez em reais, mas não eliminam riscos relacionados à inflação, ao câmbio, ao reinvestimento, ao crédito e à concentração dos recursos em uma única economia e moeda.

Em entrevista à BM&C News durante o evento, William Eid Junior, diretor do Centro de Estudos em Finanças da FGV e um dos autores do trabalho, destacou justamente essa diferença entre rendimento nominal e proteção patrimonial.

Por que Selic e CDI não garantem proteção completa?

Um dos exemplos apresentados pelo estudo considera R$ 100 aplicados no CDI no início de 2000.

Em julho de 2026, o investimento teria alcançado aproximadamente R$ 2.108, considerando o retorno nominal acumulado. No mesmo período, porém, a inflação chegou a 382%.

Descontado o avanço dos preços, o valor corresponderia a cerca de R$ 437 a preços de janeiro de 2000, equivalente a um retorno real acumulado de aproximadamente 337%.

A diferença aumenta quando a comparação passa a considerar o poder de compra em moeda estrangeira.

Desde dezembro de 2014, por exemplo, o CDI apresentou retorno acumulado de 199% em reais até julho de 2026. Quando o mesmo desempenho é medido em dólares, o retorno cai para 56%.

A pesquisa ressalta que isso não significa que o CDI seja um investimento inadequado. O instrumento pode cumprir funções importantes de liquidez e fazer parte de uma carteira de longo prazo. A questão é tratá-lo como uma referência universal de proteção patrimonial.

Patrimônio brasileiro continua concentrado no país

Outro ponto levantado pela pesquisa é o elevado grau de concentração dos recursos das famílias brasileiras.

Considerando o núcleo formado por imóveis, aplicações financeiras e fundos, 97,8% do patrimônio está dentro da economia brasileira e apenas 2,2% está no exterior.

O estudo argumenta ainda que possuir diferentes produtos financeiros no Brasil não significa necessariamente estar diversificado.

Uma carteira pode reunir renda fixa, fundos e ações e, ainda assim, permanecer exposta à mesma moeda, ao mesmo ambiente fiscal e aos mesmos riscos econômicos.

A diversificação efetiva, segundo os pesquisadores, depende da combinação de ativos ligados a economias, moedas e emissores diferentes.

Roberto Lee, CEO e fundador da Avenue, afirmou à BM&C News que a análise ajuda a colocar o risco brasileiro em perspectiva quando o país é comparado a outras economias avaliadas pelos investidores internacionais. Lee também destacou uma mudança no perfil do investidor brasileiro nos últimos anos, acompanhada da redução das barreiras de acesso ao mercado internacional.

O CEO da Avenue, Roberto Lee (Foto: Maurílio Goeldner)

Investir no exterior exige disciplina e constância

O levantamento também procura responder a uma das principais dúvidas de quem pretende internacionalizar parte do patrimônio: qual é o melhor momento para enviar recursos ao exterior?

A conclusão dos pesquisadores é que tentar antecipar os movimentos do câmbio pode prejudicar a estratégia.

Em 80 janelas de dez anos iniciadas a partir de 2010, a estratégia de realizar aportes mensais superou a decisão de esperar pelo melhor momento para investir. Em uma das simulações realizadas, aportar regularmente resultou em patrimônio 9,2% maior do que esperar o dólar cair 15% para realizar a remessa.

Na prática, a recomendação metodológica do estudo é baseada em disciplina e constância, e não na tentativa de prever o momento ideal do câmbio.

A pesquisa também sustenta que nem mesmo gestores profissionais conseguem acertar de maneira persistente os melhores momentos de entrada e saída.

Quanto o investidor deveria ter no exterior?

O estudo atual dá continuidade a um levantamento anterior do FGVcef, publicado em 2024.

Naquele trabalho, os pesquisadores calcularam um piso de 16% do patrimônio em ativos internacionais para compensar a exposição do consumo brasileiro às variações cambiais, percentual que pode chegar a 17% ou 18% entre famílias de maior renda.

O novo estudo amplia a discussão.

Para os autores, a proteção patrimonial envolve não apenas o consumo, mas também preservação de capital, diversificação das fontes de risco, acesso a estratégias internacionais e geração de renda em moeda forte.

O levantamento apresenta ainda faixas ilustrativas de alocação de acordo com a fase de vida, mas ressalta que esses percentuais não constituem recomendação de investimento e devem considerar objetivos, situação financeira e perfil de risco de cada investidor.

Selic alta não elimina riscos: estudo da FGV defende diversificação internacional do patrimônio
William Eid Junior, diretor do Centro de Estudos em Finanças da FGV e um dos autores da pesquisa (Foto: Maurílio Goeldner)