O conflito no Irã entra em uma fase que pode ultrapassar ataques pontuais e gerar uma mudança estrutural no equilíbrio de poder do Oriente Médio. A avaliação é de Igor Lucena, economista e doutor em Relações Internacionais, em entrevista à BM&C News.
Segundo ele, o cenário atual coloca o regime iraniano em uma das posições mais frágeis das últimas décadas, tanto no ambiente externo quanto no contexto doméstico.
“O Irã nunca esteve em uma situação tão frágil, externa e internamente”, afirmou Lucena.
O especialista destaca ainda que o país enfrenta pressão militar, isolamento diplomático e manifestações internas contra o regime.
Conflito no Irã: mudança pontual ou transformação estrutural?
Para Lucena, a escalada envolvendo Estados Unidos e Irã pode resultar em uma reconfiguração do tabuleiro geopolítico regional.
O especialista avalia que uma eventual mudança interna no regime iraniano poderia alterar o padrão de relacionamento com os países vizinhos e reduzir tensões históricas.
“Se houver uma mudança interna para líderes menos hostis, isso pode trazer mais estabilidade para a região”, afirmou.
Ele pondera, porém, que o risco está em uma possível radicalização ainda maior do poder ou até em um cenário de disputa interna.
“O grande problema é se essas mudanças refletirem na ascensão de líderes mais radicais ou até mesmo em uma espécie de guerra civil interna pelo poder. Aí sim teríamos um país fortemente armado e desorganizado”, disse.
Isolamento regional e fragilidade estratégica
Lucena observa que o Irã vem enfrentando crescente isolamento no Oriente Médio. Ataques a países vizinhos que abrigam bases americanas e a tensão com Estados do Golfo ampliaram o distanciamento diplomático.
“O Irã se distanciou totalmente de outros Estados naquela região”, afirmou.
Ele também lembra que o país rivaliza com potências regionais como a Arábia Saudita, além de manter uma postura hostil em relação a Israel.
A combinação entre pressão externa e instabilidade interna cria, segundo o especialista, um ambiente de incerteza sobre o que ocorrerá no pós-ataques.
“O grande questionamento é quanto tempo vai durar essa ofensiva e se os iranianos vão sentar para negociar ou se haverá uma mudança mais radical no poder”, avaliou.
Programa nuclear no centro da disputa
Um dos pontos centrais do conflito no Irã é o avanço do programa nuclear iraniano. Oficialmente, o governo sustenta que o objetivo é energético, mas a percepção internacional é diferente.
“O governo iraniano quer sim armas atômicas com objetivo de dissuasão”, afirmou Lucena.
Segundo ele, a presença de Israel como potência nuclear na região é um fator que motiva Teerã a buscar capacidade semelhante. O risco, no entanto, vai além do Oriente Médio.
“O desenvolvimento de mísseis transcontinentais com armas atômicas representaria um risco direto aos Estados Unidos”, disse.
Para o especialista, a posição americana é clara: impedir que o Irã alcance esse nível de capacidade militar.
Conflito no Irã: China e Rússia fora do jogo
Lucena também aponta que o Irã enfrenta dificuldades para obter apoio de aliados estratégicos tradicionais.
“A China não quer se envolver nesse conflito com receio de novas tarifas ou tensões em relação a Taiwan”, afirmou.
Já a Rússia, segundo ele, estaria limitada pela guerra na Ucrânia, o que reduz sua capacidade operacional para abrir uma nova frente de conflito.
Esse cenário amplia o isolamento iraniano e fortalece a percepção de que o país enfrenta um momento decisivo em sua trajetória política e estratégica.












