Existe um avião que parece ter saído de um desenho animado: barriga esférica gigante, cabine rebaixada e um nariz que abre para expor um compartimento enorme. O Airbus Beluga não foi projetado para parecer normal, mas sim para resolver um problema industrial que nenhuma outra aeronave conseguia enfrentar: transportar as peças colossais dos aviões da Airbus entre fábricas espalhadas por toda a Europa.
Por que a Airbus precisou criar um avião tão fora do comum?
A Airbus produz seus aviões de forma descentralizada: asas na Inglaterra, fuselagens na Alemanha, seções traseiras na França e na Espanha, e montagem final em Toulouse. Transportar componentes com 30 a 45 metros de comprimento por terra ou mar seria inviável nos prazos de produção.
A solução foi rebaixar a cabine dos pilotos abaixo da linha da fuselagem original e criar um compartimento superior livre e contínuo, um tubo gigante sem nenhuma obstrução interna. O resultado é um avião que parece uma baleia branca do Ártico, animal que deu origem ao apelido e ao nome oficial da família.

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O que era o BelugaST e por que ele foi aposentado?
A primeira geração, chamada BelugaST (Super Transporter), era baseada no Airbus A300-600 e entrou em serviço em 1995. Com capacidade de carga de 47 toneladas e comprimento útil de 30 metros, o modelo transportava apenas uma asa do A350 por viagem, o que se tornou um gargalo logístico com o aumento da produção.
Após quase 30 anos de operação, o último BelugaST realizou seu voo de despedida no Reino Unido em janeiro de 2026, encerrando definitivamente as atividades. Entre 2021 e início de 2025, a Airbus tentou comercializar a capacidade excedente dos modelos para cargas superdimensionadas do mercado externo, com a divisão Airbus Beluga Transport, mas encerrou a iniciativa sem conseguir viabilidade comercial.
Quais são as dimensões e a capacidade do BelugaXL?
O BelugaXL, baseado no Airbus A330-200, realizou seu primeiro voo em julho de 2018 e entrou em serviço operacional pleno em 2020. Segundo a ficha técnica do Airbus BelugaXL, a aeronave tem 63,1 metros de comprimento, envergadura de 60,3 metros e fuselagem de 8,8 metros de diâmetro.
O volume interno útil chega a 2.209 m³, tornando o BelugaXL a aeronave com o maior compartimento de carga transversal do mundo, superando até o Antonov An-225 nesse quesito. Os números consolidados da versão atual mostram o avanço em relação ao modelo original:
- Comprimento total: 63,1 metros
- Envergadura: 60,3 metros
- Diâmetro da fuselagem: 8,8 metros
- Volume de carga: 2.209 m³
- Capacidade de carga: 51 toneladas
- Aumento de capacidade útil frente ao ST: 46%

Como funciona o embarque de carga no Beluga?
A carga não entra pelo nariz, mas por uma porta dianteira superior que abre para cima, expondo toda a boca do compartimento. O processo é realizado por sistemas de trilhos e pontes de carga elevadas específicos para cada fábrica, e leva cerca de 45 minutos para completar a troca de uma seção de fuselagem ou asa.
O canal Mochilando na Aviação, com mais de 147 mil inscritos no YouTube, explica a história completa da família Beluga, desde o Super Guppy dos anos 1970 até o BelugaXL, incluindo a visita inédita do avião ao Brasil para transportar um helicóptero:
Quantos destinos a frota de BelugaXL cobre atualmente na Europa?
A frota atual de seis BelugaXL opera entre 11 destinos na Europa, realizando voos diários entre Toulouse, Hamburgo, Broughton, Getafe, Saint-Nazaire e Bremen. O grande avanço operacional do modelo é a capacidade de transportar duas asas do A350 por viagem, reduzindo pela metade o número de voos necessários para esse componente.
Segundo a página oficial do Beluga na Airbus, toda a cadeia produtiva da fabricante europeia depende diretamente dessa frota para manter o ritmo de montagem sincronizado entre países. O avião que parece uma baleia com asas é, na prática, o elo logístico que mantém a linha de produção de aeronaves mais complexas do mundo em movimento.

