Todo outono, as ferrovias europeias enfrentam o mesmo inimigo silencioso: folhas caídas nos trilhos. O problema parece banal, mas quando comprimidas pelas rodas do trem, elas formam uma película escorregadia semelhante ao Teflon que compromete a frenagem e gera atrasos em cascata. Foi para resolver isso que surgiu o LaserTrain, um sistema instalado no próprio trem capaz de vaporizar essa contaminação a 80 km/h sem parar a operação.
Por que folhas nos trilhos travam o trem nas ferrovias europeias?
O mecanismo é mais complexo do que parece. Ao serem esmagadas pelas rodas do trem repetidamente, as folhas liberam celulose, taninos e compostos orgânicos que se fundem com a superfície metálica do trilho, formando uma camada extremamente lisa. O resultado prático é semelhante ao gelo negro nas estradas: invisível a olho nu, mas capaz de multiplicar a distância de frenagem e comprometer a segurança operacional.
Só no Reino Unido, o problema gerou 4,5 milhões de horas de atrasos em 2013, segundo dados da operadora Network Rail. Os métodos tradicionais disponíveis até então eram:
- Jatos de água de alta pressão: eficazes, mas consomem grandes volumes de água e podem não remover totalmente a película.
- Areação dos trilhos: aplica partículas abrasivas para aumentar o atrito temporariamente.
- Gel de tração: produto químico preventivo, mas com prazo de eficácia limitado.

O que é o LaserTrain e como ele funciona a bordo do trem?
O LaserTrain é um sistema desenvolvido pela empresa holandesa Laser Precision Solutions (LPS), sediada em Amsterdã. Ele consiste em um conjunto de seis feixes de laser de alta intensidade montados diretamente no trem, posicionados próximos às rodas e direcionados para os trilhos. Ao passar sobre a contaminação, o laser a vaporiza instantaneamente, eliminando resíduos de folhas, óleo, graxa e ferrugem sem água, sem produtos químicos e sem interromper a operação.
Os primeiros testes ocorreram nos Países Baixos em 2014, em parceria com a ProRail e pesquisadores da Universidade Técnica de Delft (TU Delft). Os resultados mostraram que o sistema funcionava com o trem em movimento a velocidades de até 80 km/h.

Como foram os testes com o trem equipado com laser no Reino Unido?
Em outubro de 2022, a Network Rail realizou os primeiros testes do LaserTrain em solo britânico, na linha histórica da East Lancashire Railway, no noroeste da Inglaterra. O trem multipropósito foi equipado com o sistema da LPS e testado a velocidades de até 97 km/h, em comparação direta com o método tradicional de jatos de água de alta pressão.
O canal oficial da Network Rail, com mais de 92 mil inscritos, publicou um vídeo com mais de 27 mil visualizações mostrando os testes em operação, incluindo o funcionamento dos lasers e dos jatos de plasma superaquecido testados como alternativa complementar:
Durante os testes, engenheiros mediram os níveis de atrito antes e depois da passagem do trem sobre trechos contaminados, repetindo o processo várias vezes. A tecnologia também foi avaliada em combinação com jatos de plasma superaquecido, que utilizam nitrogênio da atmosfera e uma centelha de alta voltagem para remover a contaminação por calor.
Essa tecnologia já opera em outros países?
A Network Rail confirma que o sistema de laser é utilizado em Nova York desde 2018, onde reduziu os atrasos causados por folhas nos trilhos em dois terços. A diferença está na velocidade: em Nova York, o trem equipado opera a apenas 40 km/h, velocidade muito inferior à dos testes britânicos.
A empresa LaserThor, sediada em Hampshire, também desenvolve uma solução paralela baseada em laser Nd:YAG instalado a bordo das composições, com capacidade de remover folhas, óleo e ferrugem dos trilhos, integradamente à operação regular do trem.
Quando o trem com laser deve operar em larga escala?
Após os testes de 2022, a Network Rail iniciou estudos de viabilidade econômica para avaliar a implementação na malha britânica, que soma cerca de 32 mil quilômetros de trilhos. Até abril de 2026, a tecnologia permanece em fase de validação técnica no Reino Unido e nos Países Baixos, sem implementação comercial em larga escala confirmada.
O que torna o LaserTrain especialmente promissor não é apenas a eficácia técnica, mas a possibilidade de operar durante a circulação normal do trem, sem janelas de manutenção específicas. Em redes ferroviárias densas como a britânica, onde cada interrupção gera impacto em dezenas de composições, essa característica pode ser tão valiosa quanto a própria capacidade de limpar os trilhos.

