O Canal da Mancha já foi cenário de uma das travessias mais rápidas e inusitadas da história do transporte: um hovercraft gigante que flutuava sobre ar comprimido a mais de 110 km/h, transportando carros e centenas de passageiros entre a Inglaterra e a França. Enquanto os ferries convencionais levavam até 90 minutos para fazer o mesmo percurso, ele cruzava em 35 minutos, e em condições ideais chegou a completar a travessia em apenas 22 minutos.
O que era o SR.N4 e como ele dominava o Canal da Mancha?
O SR.N4, batizado como classe Mountbatten em homenagem ao Lorde Mountbatten, foi desenvolvido a partir de 1965 pela Saunders-Roe, que se fundiria com a Vickers Supermarine para formar a British Hovercraft Corporation. Ventiladores centrífugos de 3,5 metros de diâmetro insuflavam ar sob o casco, criando uma câmara pressurizada que sustentava toda a embarcação acima da superfície da água. Conforme detalhado na Wikipedia, o projeto representou o ápice da engenharia de hovercrafts comerciais do século XX.
Essa câmara era mantida por uma saia periférica de borracha com 12 toneladas que circundava toda a embarcação. Ao cortar o fluxo de ar, a saia esvaziava e o hovercraft pousava suavemente sobre cinco patins de borracha distribuídos sob o casco, chamados de “pés de elefante”.

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Quatro turbinas Rolls-Royce moviam o maior hovercraft comercial do mundo
O coração do SR.N4 eram quatro turbinas a gás Rolls-Royce Proteus, os mesmos motores usados no avião turboélice Bristol Britannia. Cada turbina gerava 3.400 cv nas versões iniciais e 3.800 cv na versão ampliada, acionando simultaneamente os ventiladores do colchão de ar e as hélices de propulsão montadas em pórtico acima do casco, com até 6,4 metros de diâmetro. Segundo o En-Academic, a configuração de quatro turbinas era operada por uma tripulação de três pessoas com controles idênticos aos de uma aeronave.
As quatro hélices eram orientáveis e podiam girar para qualquer direção, funcionando como o principal meio de propulsão, frenagem e manobra lateral. A cabine de comando era operada por uma tripulação de três pessoas, composta por comandante, engenheiro de voo e navegador.

Como o SR.N4 evoluiu da versão Mk.I até os 56 metros do Mk.III?
O SR.N4 passou por três gerações ao longo de sua vida operacional no Canal da Mancha. A versão original, o Mk.I, media 39,68 metros e transportava 254 passageiros e 30 carros. A transformação mais radical veio com o Mk.III, resultado de um alongamento de 16,9 metros realizado após 1976, que levou a embarcação a 56,38 metros de comprimento e 23 metros de largura, o equivalente a dois Boeing 737 enfileirados. A conversão de cada exemplar custou cerca de £ 5 milhões.
A tabela abaixo compara as três versões nos principais atributos operacionais:
| Versão | Comprimento | Passageiros | Carros | Velocidade máx. |
|---|---|---|---|---|
| Mk.I | 39,68 m | 254 | 30 | 120 km/h |
| Mk.II | 39,68 m | 282 | 37 | 130 km/h |
| Mk.III | 56,38 m | 418 | 60 | 120+ km/h |
O recorde de 22 minutos no Canal da Mancha que nenhum ferry igualou
A rota Dover–Boulogne, de 56 km, era percorrida em aproximadamente 35 minutos nas condições normais de operação. Em dias de verão, a frota operava até 14 viagens de ida e volta por dia. O pico de desempenho veio em 14 de setembro de 1995, quando o exemplar GH-2007 Princess Anne completou a travessia em 22 minutos, estabelecendo o recorde absoluto de um hovercraft comercial transportando carros pelo Canal da Mancha.
O canal Stuff Zoom, com 839 inscritos e especializado em registros históricos de transportes, reuniu imagens originais de 1993 do SR.N4 em operação na rota Dover–Calais, com 13.477 visualizações. No vídeo a seguir, é possível ver de perto todo o processo de embarque, inflação da saia, decolagem e pouso sobre a água:
Quais foram os principais marcos do SR.N4 em 32 anos no Canal da Mancha?
Entre agosto de 1968 e outubro de 2000, o SR.N4 acumulou décadas de operação ininterrupta, estabelecendo referências de velocidade e capacidade que nenhum outro meio de transporte de superfície conseguiu replicar. Segundo o James Hovercraft, a longevidade operacional e os recordes estabelecidos colocam a embarcação num patamar isolado na história do transporte marítimo comercial.
Os marcos mais relevantes da trajetória do SR.N4 ao longo de 32 anos de operação:
- Primeiro serviço comercial: 1º de agosto de 1968, rota Dover–Boulogne, pela Seaspeed
- Recorde de travessia: 22 minutos, Princess Anne, 14 de setembro de 1995
- Último serviço: 1º de outubro de 2000, encerrado pela Hoverspeed
- Exemplar preservado: Princess Anne, Hovercraft Museum, Lee-on-Solent, Hampshire
- Capacidade máxima: 418 passageiros e 60 carros na versão Mk.III
Por que o maior hovercraft do Canal da Mancha deixou de operar em 2000?
As duas operadoras originais, Hoverlloyd e Seaspeed, fundiram-se em 1981 para formar a Hoverspeed, que operou a frota até 1º de outubro de 2000. A decisão de encerrar as operações foi econômica: a abertura do Eurotúnel em 1994 e a crescente competição dos ferries de alta velocidade tornaram a manutenção dos SR.N4 inviável financeiramente.
O único exemplar Mk.III sobrevivente, o Princess Anne, foi preservado no Hovercraft Museum em Lee-on-Solent, Hampshire, no Reino Unido, como testemunho de uma era do transporte marítimo que não voltou a ser replicada.

O recorde de 22 minutos do Princess Anne no Canal da Mancha nunca foi superado
O Canal da Mancha segue sendo cruzado por ferries e pelo Eurotúnel, mas nenhum hovercraft comercial de porte equivalente ao SR.N4 foi construído desde o encerramento das operações em 2000. A tecnologia de saia periférica, os sistemas de propulsão orientável e a integração entre controles aeronáuticos e náuticos desenvolvidos para o projeto nunca foram replicados em escala comercial.
Os 22 minutos estabelecidos pelo Princess Anne em 14 de setembro de 1995 permanecem como o registro máximo de velocidade numa travessia que, por décadas, definiu o estado da arte do transporte marítimo de superfície.

