No interior do Rio Grande do Sul, um fruticultor de Erechim prova que diversificar pode ser o caminho para enfrentar as dificuldades do campo. Em uma propriedade de 12 hectares, Luciano Corto cultiva desde frutas nativas como butiá e araçá até variedades antigas de marmelo e figo, garantindo renda o ano inteiro com venda direta e manejo criterioso.
Por que um pomar diversificado é vantagem no clima gaúcho?
Com cerca de 5 a 6 mil plantas espalhadas por 5 hectares, Luciano organiza o ano para colher quase sempre. A safra abre em outubro com amora-preta e framboesa, passa por pêssego e ameixa, e avança com mirtilo, figo e marmelo do verão ao outono. A diversificação dilui riscos climáticos e de preço, além de evitar picos de trabalho que exigiriam muita mão de obra.
O solo raso e pedregoso da região pede paciência com o enraizamento. A roçada em períodos estratégicos forma um “tapete” de palhada que conserva umidade e nutre o terreno. Para quem olha de longe, parece capim alto; para quem conhece, é um mosaico produtivo com milhares de frutíferas em diferentes idades e portes.

O canal jj88, com 728 mil inscritos, mostrou em vídeo como funciona o resgate de frutas antigas na propriedade. A reportagem destaca o cuidado com as variedades e a rotina do produtor. Confira:
Qual é o papel do marmelo nesse pomar diversificado?
O marmelo é o orgulho e o desafio de Luciano. Exigente em frio e em água, produz melhor em altitude no Sul do Brasil. Segundo a Embrapa Clima Temperado, o marmeleiro demanda horas de frio no inverno para quebrar dormência e florescer com regularidade em regiões acima de 600 metros, o que converge com a experiência na Serra Gaúcha.
No sítio, convivem o marmelo-maçã e o marmelo imperial. Este último rende frutos muito grandes, às vezes perto de 1 kg, embora mais ácidos. A diversidade genética compensa falhas e alonga a janela de colheita. No inverno, Luciano aplica calda sulfocálcica para higienizar cascas e conter doenças como a entomosporiose, que no marmelo pode ser devastadora.
No preço, o marmelo in natura sai a cerca de R$ 10 o quilo, e parte vai para marmelada, geleia, compota e chá, usos tradicionais que ajudam a girar estoque e valorizar a safra.

Como figo, framboesa e mirtilo complementam a renda?
No figo, Luciano mantém um banco vivo de cultivares como São Pedro, Gota de Mel e roxo de Valinhos, cada qual com produtividade e tolerância ao frio diferentes. Em invernos rigorosos, variedades menos rústicas sofrem, por isso a aposta é em diversificar para sempre ter safra.
A framboesa tem duas colheitas ao ano, na primavera e no outono. É trabalhosa, mas paga bem no varejo, com potes de 100 g vendidos por R$ 10 a R$ 15 na ponta da safra. Já o mirtilo é minucioso na colheita e sensível a fungos e ao pH do solo, explicando preços em torno de R$ 70 a R$ 80 o quilo no congelado local.
Para o mirtilo, abelhas nativas e mamangavas são chave. Pesquisas da Embrapa indicam que a polinização por abelhas de maior porte melhora o vingamento do mirtilo, já que a abelha europeia visita menos suas flores. Preservar esses polinizadores é vital para a agricultura familiar.
A tabela abaixo resume as principais frutas cultivadas e suas características:
| Fruta | Época de colheita | Preço médio (varejo) | Desafio principal |
|---|---|---|---|
| Marmelo | Fim do verão e outono | R$ 10/kg (in natura) | Necessidade de frio e controle de doenças |
| Framboesa | Primavera e outono | R$ 10 a R$ 15 (100g) | Manejo trabalhoso e sensibilidade climática |
| Mirtilo | Verão | R$ 70 a R$ 80/kg (congelado) | Polinização específica e pH do solo |
| Figo | Verão | Variável conforme variedade | Tolerância ao frio das diferentes cultivares |
| Butiá e nativas | Outono/inverno | Mercado de nicho | Extração e processamento |

Como a venda direta protege o produtor da pressão do mercado?
Em vez de ficar preso a um atacadista e enfrentar leilão de preços, Luciano prioriza a venda direta na tenda da estrada e para consumidores da cidade. Assim, agrega valor nas frutas miúdas e processados, e não precisa escalar volume além da demanda local. Quando a oferta regional explode, como no pêssego em safras cheias, quem depende de atravessador sofre para escoar.
Com o leque de frutas, ele evita o “tudo ou nada” e mantém renda distribuída ao longo do ano. A diversificação não apenas espalha riscos, como também distribui o trabalho em janelas mais curtas e manejáveis, algo essencial num cenário de mão de obra escassa no campo.
Algumas estratégias que garantem o sucesso do modelo:
- Produção própria de mudas: Luciano resgata estacas em sítios vizinhos e multiplica variedades antigas que o comércio abandonou.
- Manejo integrado de pragas: Usa insumos químicos na fase de crescimento e troca para repelentes como óleo de nim na aproximação da maturação.
- Polinização natural: Mantém abelhas e preserva mamangavas para garantir o vingamento das frutas.
- Processamento artesanal: Geleias, compotas e chás agregam valor e aproveitam frutas fora do padrão de mesa.
- Calendário ajustado ao clima: A agenda de colheitas é afinada com as condições de altitude do Alto Uruguai gaúcho.
- Preservação genética: Guarda estacas de variedades raras para multiplicar e manter a diversidade no pomar.
Vale a pena apostar na diversificação e na venda direta no campo gaúcho?
A experiência de Erechim mostra que sim. Mesmo enfrentando frio intenso, solo difícil e falta de assistência técnica, é possível construir um sistema produtivo que gera renda o ano inteiro e ainda preserva frutas esquecidas. O segredo está em conhecer cada cultura, respeitar seus ciclos e, principalmente, fugir da dependência de um único comprador ou de uma única safra.
Para quem vive em regiões onde o atacado pressiona os preços, abrir mão de escala para priorizar valor agregado pode ser a diferença entre sobreviver ou prosperar. Luciano Corto prova que, com manejo criterioso e olho no consumidor final, é possível transformar um pomar em fonte de renda contínua e ainda contribuir para a preservação da biodiversidade agrícola.

