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Com 2.700 garrafas coletadas e R$ 8 mil no bolso, morador de Espírito Santo ergue casa de 46 metros quadrados usando madeira e concreto, desperta interesse de construtoras e tem patente reconhecida

Laila Por Laila
27/02/2026
Em Engenharia

Um eletricista de 34 anos, sem formação em engenharia ou arquitetura, provou que a inovação pode nascer da necessidade e da observação. Antônio Duarte Gomes, morador de Espírito Santo (RN), construiu uma casa de 46 m² usando 2.700 garrafas PET preenchidas com areia e cimento, investindo apenas R$ 8 mil. A técnica despertou o interesse de construtoras e rendeu ao inventor uma patente reconhecida.

Como surgiu a ideia de construir uma casa com garrafas PET?

O projeto começou em 2010, quando Antônio Duarte observou um monte de garrafas plásticas queimando sob o sol. A cena o fez questionar o desperdício e a possibilidade de dar um destino mais útil ao material. Sem recursos para uma obra convencional, ele passou dois anos testando diferentes formas de usar os recipientes na construção civil.

Foram inúmeras tentativas com materiais diversos, preenchimentos variados e arranjos estruturais. Até que, em dezembro de 2009, a primeira casa ecológica ficou pronta. O resultado consumiu aproximadamente 2.700 garrafas PET e teve custo total de R$ 8 mil, metade do que seria gasto em uma construção convencional de mesmo porte na época.

O resultado consumiu aproximadamente 2.700 garrafas PET e teve custo total de R$ 8 mil, metade do que seria gasto em uma construção convencional de mesmo porte na época

Leia também: Mulher transforma 36 mil garrafas PET em casa de 170 metros quadrados e constrói mais de 300 moradias populares na América Latina

Qual a técnica desenvolvida por Antônio para erguer as paredes?

O método difere dos processos construtivos tradicionais. As garrafas são preenchidas com uma mistura de areia e cimento e depois posicionadas em fôrmas de madeira e chapas de aço, tanto na vertical quanto na horizontal, criando uma trama estrutural. O espaçamento entre cada garrafa é de 12 centímetros, considerado ideal para distribuir os esforços uniformemente.

Após o posicionamento, uma argamassa de cimento e areia é lançada nos vazios, envolvendo completamente os recipientes e formando uma parede monolítica. Um diferencial importante é a possibilidade de embutir instalações elétricas e hidráulicas nas próprias fôrmas antes da concretagem, eliminando a necessidade de quebrar paredes depois.

Um diferencial importante é a possibilidade de embutir instalações elétricas e hidráulicas nas próprias fôrmas antes da concretagem, eliminando a necessidade de quebrar paredes depois

O canal Ric RECORD Oeste, com 150 mil inscritos, mostrou em reportagem como a técnica funciona na prática. A matéria destaca o processo de preenchimento das garrafas e a montagem das paredes. Confira:

Testes da UFRN comprovam resistência superior da construção?

Sim, e os números impressionaram até os pesquisadores. Amostras das paredes foram submetidas a ensaios de compressão no laboratório de concreto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. O resultado foi de 1,94 MPa (Mega Pascal), enquanto a tolerância média para blocos de concreto convencionais é de 1,5 MPa. Isso representa cerca de 30% mais resistência.

Além da resistência mecânica, os testes avaliaram o comportamento térmico e acústico. As garrafas plásticas preenchidas criam câmaras de ar que funcionam como isolante natural, mantendo os ambientes mais frescos em climas quentes e oferecendo melhor isolamento sonoro.

Amostras das paredes foram submetidas a ensaios de compressão no laboratório de concreto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

A tabela abaixo compara a técnica de Antônio com a alvenaria tradicional:

Característica Construção com Garrafas PET Alvenaria Convencional
Custo por m² Aproximadamente R$ 400 Aproximadamente R$ 600
Resistência à compressão 1,94 MPa (30% superior) 1,5 MPa (média)
Tempo de montagem das paredes 3 dias 15 a 20 dias
Consumo de cimento 4 sacos (redução de 60%) 10 sacos
Isolamento térmico Superior (câmaras de ar) Inferior

Como a técnica foi patenteada e despertou interesse comercial?

Consciente do potencial da invenção, Antônio buscou proteção legal. O sistema foi registrado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial sob o nome “parede de concreto vibrada com garrafas PET”. A patente garante a ele direitos exclusivos sobre a comercialização da técnica.

Empresas do setor da construção civil já adquiriram unidades para teste e demonstraram interesse em produzir as casas ecológicas em escala industrial. Até o momento, cerca de 40 residências foram erguidas com o método em diferentes regiões do Brasil, incluindo um edifício de quatro andares em Petrolina (PE) que consumiu 60 mil garrafas.

Algumas vantagens que explicam o interesse de construtoras e moradores:

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  • Economia real: Custo 33% menor por metro quadrado em comparação à alvenaria tradicional.
  • Velocidade de execução: Paredes prontas em apenas 3 dias, contra semanas no método convencional.
  • Sustentabilidade: Cada casa retira 2.700 garrafas do meio ambiente, evitando que poluam rios e oceanos.
  • Conforto térmico: As câmaras de ar nas garrafas mantêm a casa mais fresca, reduzindo a necessidade de ventiladores.
  • Resistência comprovada: Testes acadêmicos atestam desempenho superior ao dos materiais tradicionais.
  • Flexibilidade para reformas: As paredes podem ser quebradas e ampliadas com as mesmas ferramentas da alvenaria comum.

O que torna a casa de Antônio tão especial para a construção civil?

A trajetória de Antônio Duarte desafia a ideia de que inovações técnicas exigem formação acadêmica formal. Eletricista de profissão, ele aprendeu na prática, com observação, tentativas e erros. Durante dois anos, testou preenchimentos, espaçamentos e materiais até chegar à fórmula ideal. A colaboração com engenheiros e arquitetos amigos foi fundamental para refinar a técnica e garantir a segurança estrutural.

O resultado é uma solução que alia baixo custo, rapidez, sustentabilidade e resistência. Em um país com déficit habitacional de milhões de moradias, a técnica desenvolvida no Rio Grande do Norte pode representar uma alternativa viável para políticas públicas de habitação popular. Antônio provou que, com criatividade e persistência, é possível transformar lixo em moradia digna.

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