O Brasil está prestes a entrar para o seleto clube das nações com capacidade de projetar poder sob as ondas. Com 100 metros de comprimento e 6.000 toneladas, o submarino nuclear SN-BR Álvaro Alberto terá autonomia para patrulhar a “Amazônia Azul” por meses sem emergir, um salto tecnológico que reposiciona o país no cenário geopolítico marítimo.
O que é o PROSUB e como ele viabiliza o submarino nuclear brasileiro?
O SN-BR é o ápice do PROSUB, o Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha. Estabelecido em 2008 por meio de parceria com a França, o programa incluiu a construção de estaleiro e base naval em Itaguaí (RJ).
Foram produzidos quatro submarinos convencionais da Classe Riachuelo (os S-BR) e agora o desenvolvimento do primeiro submarino de propulsão nuclear do país, o Álvaro Alberto. A parceria foi crucial para a transferência de tecnologia na parte não nuclear.

O projeto do submarino foi detalhado pela Marinha em apresentação na Câmara dos Deputados. O canal Câmara dos Deputados, com 1,41 milhão de inscritos, mostrou como o avanço representa um marco tecnológico e estratégico para as Forças Armadas. Confira:
Qual é a engenharia por trás do reator nuclear PWR do SN-BR?
O coração do submarino é um reator nuclear de água pressurizada (PWR), desenvolvido pelo Programa Nuclear da Marinha no CTMSP. O reator utiliza pastilhas de óxido de urânio como combustível e água leve sob alta pressão no circuito primário.
O calor do reator aquece um circuito secundário em geradores de vapor, gerando vapor que aciona turbinas. As turbinas são conectadas a geradores elétricos em um sistema conhecido como propulsão turboelétrica.
Com cerca de 48 megawatts de potência (65 mil cavalos), a eletricidade gerada alimenta um motor elétrico silencioso que gira a hélice. O protótipo em escala real, chamado LABGENE, está em construção em Aramar (SP) para validar o sistema.

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Como a propulsão nuclear difere da diesel-elétrica na tática naval?
A diferença fundamental está na capacidade de permanecer submerso. Submarinos convencionais como os S-BR precisam emergir ou usar snorkel para recarregar baterias com motores a diesel, gerando ruído e exposição.
O SN-BR, com seu reator nuclear, não precisa disso. Sua autonomia submersa é limitada apenas pela tripulação e suprimentos, podendo operar por semanas ou meses em imersão total.
Ele pode sustentar altas velocidades (cerca de 25 nós) por tempo indeterminado, algo impossível para um diesel-elétrico. Isso permite um emprego tático “de manobra”: deslocar-se rápido para áreas distantes, perseguir alvos ou evadir ameaças, sempre oculto.
A tabela abaixo resume as principais diferenças táticas:
| Característica Tática | Diesel-Elétrico (S-BR) | Nuclear (SN-BR Álvaro Alberto) |
|---|---|---|
| Autonomia submersa | Limitada a dias | Semanas ou meses |
| Velocidade submersa sustentada | Baixa (máxima por horas) | Alta (25 nós por tempo indeterminado) |
| Necessidade de snorkel | Sim, periódica | Não |
| Discrição acústica | Boa em baixa velocidade | Excelente (propulsão elétrica contínua) |
| Papel estratégico | Patrulha de área | Dissuasão de longa distância |
O que é a “Amazônia Azul” e por que precisa ser patrulhada?
A Amazônia Azul é a Zona Econômica Exclusiva e plataforma continental brasileira. São cerca de 5,7 milhões de km², área comparável à Amazônia terrestre, rica em petróleo do pré-sal e biodiversidade marinha.
Essa região abriga rotas de comércio vitais e cabos submarinos de comunicação. O Itamaraty e a Marinha tratam essa faixa do Atlântico Sul como ativo estratégico de primeira grandeza.
Proteger a Amazônia Azul significa garantir soberania sobre recursos, inibir pesca ilegal e assegurar liberdade de navegação. É uma questão de segurança nacional e desenvolvimento econômico.

Como o SN-BR redefine o poder marítimo brasileiro?
A entrada em operação do SN-BR Álvaro Alberto muda o patamar da capacidade de defesa do Brasil. Diferente dos submarinos convencionais, o nuclear confere capacidade de projetar poder de forma dissuasória em águas profundas.
Isso aumenta o custo de qualquer aventura militar contra interesses brasileiros no Atlântico Sul. Algumas das principais contribuições do SN-BR para a defesa nacional são:
- Presença discreta e permanente: Monitora áreas sensíveis da Amazônia Azul por longos períodos, sem ser detectado.
- Proteção das riquezas do pré-sal: Atua como guardião invisível das plataformas de petróleo e rotas de exportação.
- Dissuasão de potências extra-regionais: Eleva a complexidade para operações adversas na região.
- Escolta de grupos-tarefa: Acompanha e protege navios da Marinha em missões de longo curso.
- Prestígio geopolítico: O domínio da propulsão nuclear para fins navais coloca o Brasil em seleto grupo de nações, como destaca documento do Ministério da Defesa.
Qual é o papel do LABGENE e das estatais nesse projeto?
O LABGENE (Laboratório de Geração de Energia Núcleo-Elétrica), em construção em Aramar (SP), é um passo crucial. Trata-se de uma planta nuclear em terra que reproduz, em tamanho real, o reator do SN-BR.
Ele servirá para testar a operação e segurança de todo o sistema antes da instalação no submarino. Empresas estatais como a Amazul e a Itaguaí Construções Navais são peças-chave no processo.
A Amazul é responsável pelo desenvolvimento dos sistemas nucleares, como detalhado no site da Amazul. O índice de nacionalização do projeto é altíssimo, garantindo autonomia tecnológica.
Um marco para a defesa e a ciência nacional
Mais do que um submarino, o SN-BR Álvaro Alberto é um símbolo da capacidade brasileira de dominar tecnologias complexas. Ele integra esforços de décadas nos programas nuclear e naval em um ativo estratégico.
Unirá a proteção das riquezas da Amazônia Azul com a projeção de um Brasil soberano e tecnologicamente avançado. A entrada em serviço do primeiro submarino nuclear da América Latina marcará um novo capítulo na história da defesa nacional.

