Numa viela do distrito de Tân Bình, em Cidade de Ho Chi Minh, existe uma mansão de 100 anos que a maioria dos moradores da cidade nunca viu. Ela pertenceu a Tư Mắt, o chefe do submundo mais temido e admirado de Saigão nas primeiras décadas do século XX, um homem tão poderoso que as próprias autoridades coloniais francesas hesitavam em contrariá-lo. A estrutura permanece de pé, intacta, guardada pelos bisnetos do lendário đại ca.
Quem foi Tư Mắt, o chefe do submundo que construiu essa mansão?
O nome verdadeiro era Nguyễn Văn Trước, mas Saigão o conhecia como Tư Mắt. Começou a vida como barbeiro humilde no Distrito 5, na área de Chợ Lớn, e tornou-se o homem mais temido do submundo da cidade, comandando milhares de seguidores espalhados por toda a região muito antes da era dos “Quatro Reis” (Tứ Đại Thiên Vương) que dominariam Saigão nas décadas de 1950 e 1960.
Sua fama carregava uma ambiguidade que alimentou a lenda: era celebrado por proteger os mais pobres e desafiar os poderosos, o que lhe garantia uma aura quase mítica entre a população carente. Segundo registros históricos sobre o crime organizado em Saigão, o prestígio de Tư Mắt era tão sólido que o risco de irritar seus apoiadores populares pesava tanto quanto o medo de seus capangas nas decisões das autoridades coloniais.

O que aconteceu com Tư Mắt depois do julgamento e da prisão?
Em 1915, Tư Mắt foi levado a julgamento perante o Tribunal Criminal de Saigão, acusado de vadiagem e de ligações com movimentos de resistência ao colonialismo francês. A pena foi surpreendentemente branda para um homem de seu poder. Ao sair do cárcere, demonstrou um temperamento completamente diferente.
Já na maturidade, abandonou a vida criminal e passou a dedicar seu tempo ao Templo Budista Giác Lâm, localizado próximo à sua mansão em Tân Bình. O canal OV Đại Bàng, com mais de 669 mil inscritos, produziu o documentário mais completo sobre a trajetória de Tư Mắt, da barbearia ao comando do submundo, incluindo o episódio em que liderou o ataque à prisão Khám Lớn em 1916 para libertar o líder rebelde Phan Xích Long:
Como é a arquitetura da mansão centenária de Tư Mắt?
A mansão foi construída em 1925 no beco 13 da Rua Trần Văn Hoàng, em Tân Bình, completando exatamente 100 anos em 2025. É uma estrutura de aproximadamente 200 m², com térreo e terraço superior, erguida em concreto armado e nunca submetida a reformas significativas. Apesar dos sinais visíveis de envelhecimento, a estrutura permanece íntegra.
A arquitetura é genuinamente única: mistura o neoclassicismo europeu com elementos orientais, com quatro fachadas simétricas contornadas por corredores com pilares de concreto no estilo francês. A fachada principal apresenta sete degraus até a porta de entrada, três portas em arco estilo europeu e a inscrição “Nguyễn Bửu Long” gravada no alto, ornamentada com relevos de dragões e folhagens.

O que torna o terraço da mansão o elemento mais enigmático da construção?
O terraço superior foi projetado para imitar um Thánh thất, o templo sagrado do Caodaísmo, religião sincretista vietnamita que combina elementos do budismo, taoísmo, confucionismo e espiritismo, fundada no Vietnã em 1926. Tư Mắt era adepto da fé, explicando a presença nos quatro cantos do terraço de esculturas dos Hộ Pháp (guardiões espirituais) e, no centro, do Bát Quái Đài, altar que venera o Olho Celestial e o Imperador de Jade.
O acesso ao terraço é feito por uma única escada nos fundos da mansão, ampliando o ar de mistério do local. A combinação de uma fachada colonial francesa com um altar caodaísta no topo é um reflexo preciso do personagem que a construiu: alguém que viveu entre mundos e nunca pertenceu completamente a nenhum deles.

Quem guarda a mansão hoje e o que restou do espólio de Tư Mắt?
A mansão é habitada hoje por descendentes da única filha de Tư Mắt. O atual guardião do imóvel é Trần Trọng Hiền, bisneto de Tư Mắt em quarta geração. Segundo ele, a família possuía vastas terras na região, mas o patrimônio foi progressivamente reduzido ao longo das gerações até restar apenas a mansão. O terreno nos fundos com as sepulturas da família foi vendido, e os restos mortais dos antepassados foram transferidos para um templo.
Do espólio material de um homem que um dia comandou milhares, restam hoje apenas dois objetos que sobreviveram ao esquecimento do tempo:
- Um altar funerário, ainda em uso pela família para as homenagens aos antepassados.
- Um conjunto de mesa e cadeiras com incrustações de madrepérola, único mobiliário original que permanece na mansão após um século.
A mansão de Tư Mắt é um arquivo vivo de um Saigão que não existe mais
Sem reformas, sem restaurações e sem placas turísticas, a mansão de Tư Mắt permanece exatamente como o tempo a deixou: envelhecida, íntegra e estranhamente presente numa cidade que se transformou ao seu redor. É um dos poucos lugares em Cidade de Ho Chi Minh onde o início do século XX ainda pode ser tocado com as mãos.
A história do barbeiro que se tornou o homem mais temido de Saigão, depois se converteu ao Caodaísmo e construiu uma mansão que mistura a arquitetura colonial com altares espirituais é, por si só, um retrato da complexidade do Vietnã no século XX: um país que absorveu influências do mundo inteiro sem jamais deixar de ser profundamente ele mesmo.

