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Vale menos que o empréstimo: entenda o paradoxo bilionário dos Correios

Renata Nunes Por Renata Nunes
17/10/2025
Em Empresas, Exclusivas

Nesta semana, os Correios anunciaram a primeira fase do plano de reestruturação financeira e operacional, prometendo sustentabilidade e modernização da estatal. Entre as medidas, está a negociação de um empréstimo de R$ 20 bilhões, com garantia do Tesouro Nacional, para equilibrar as contas no biênio 2025-2026 e tentar gerar lucro a partir de 2027.

Mas a ironia é inevitável: o valor do empréstimo é superior ao valuation estimado da própria empresa. Em outras palavras, o governo pretende emprestar mais dinheiro para os Correios do que o que a própria estatal vale. Parece absurdo? Trata-se de uma equação que, em qualquer companhia privada, seria vista como temerária, mas que, no setor público brasileiro, é apresentada como “estratégia de modernização”.

Como foi feita a análise dos Correios?

Para entender melhor o tema, o economista VanDyck Silveira, elaborou uma análise inédita que compara o desempenho dos Correios do Brasil com gigantes globais da logística, como FedEx, UPS e DHL, utilizando dados acumulados do primeiro semestre de 2025. O estudo, apresentado com exclusividade à BM&C News, expõe a diferença entre a estatal brasileira e as líderes internacionais, tanto em eficiência operacional quanto em valor de mercado.

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Enquanto FedEx, UPS e DHL exibem margens líquidas positivas e retorno consistente aos acionistas, os Correios operam com um prejuízo equivalente a 23,9% da própria receita. A situação é agravada pelo fato de que o governo estuda conceder um empréstimo superior ao valuation estimado da estatal, calculado em apenas US$ 2,4 bilhões.

Para o comparativo, Silveira utilizou o câmbio médio de R$ 5,60 por dólar e converteu os resultados financeiros de todas as companhias para dólares americanos. A análise contemplou quatro variáveis centrais: receita, estrutura de custos, margem líquida e valuation. O objetivo foi medir a competitividade dos Correios frente aos padrões globais de performance logística e financeira.

Segundo o economista, o método combinou avaliação DCF e múltiplos EV/EBITDA, permitindo uma estimativa comparável entre empresas públicas e privadas. “Enquanto as líderes mundiais operam com margens acima de 9%, os Correios consomem recursos públicos para sustentar uma operação tecnicamente falida”, afirma Silveira no estudo.

Correios e empresas internacionais: comparativo de receita e custos – acumulado 1S 2025 (US$ bilhões)

EmpresaReceitaCusto de ServiçosG&AFinanceirasLucro/Prejuízo
FedEx43,9025,635,551,204,10
UPS42,7723,4513,712,125,90
DHL41,2026,5010,501,203,80
Correios (Brasil)1,591,780,610,12-0,38

Os dados mostram que os Correios gastam mais do que arrecadam em serviços, com custos de 111,9% da receita, além de despesas administrativas elevadas. As líderes globais, por outro lado, exibem um modelo enxuto e rentável, com custos abaixo de 65% do faturamento e margens líquidas entre 9% e 14%.

Custos e Resultado como % da Receita – 1S 2025

EmpresaCusto Serviços (%)G&A (%)Financeiras (%)Margem Líquida (%)
FedEx58,4%12,6%2,7%9,3%
UPS54,9%32,1%5,0%13,8%
DHL64,3%25,5%2,9%9,2%
Correios (Brasil)111,9%38,4%7,5%-23,9%

Valuation Comparado – 2025 (US$ bilhões)

EmpresaReceita Anual Est.EBITDA Est.MúltiploValuation Est.Método
FedEx87,9310,67,7x81,6EV/EBITDA
UPS91,1011,97,5x89,3EV/EBITDA
DHL84,209,57,0x66,5EV/EBITDA
Correios (Brasil)3,180,664,0x2,4DCF/Múltiplos

O dado mais alarmante não está apenas no prejuízo recorrente, mas no fato de que o empréstimo público em negociação supera o valor de mercado da própria estatal. Em outras palavras, o governo pretende injetar mais dinheiro do que os Correios efetivamente valem. O paradoxo expõe um problema estrutural: o país segue financiando uma operação deficitária em vez de reavaliar sua viabilidade econômica.

Um abismo de eficiência e valor

Enquanto FedEx, UPS e DHL operam com receitas entre US$ 84 e 91 bilhões e margens positivas, os Correios somam prejuízo recorrente, baixa produtividade e dependência do Tesouro Nacional. O contraste não é apenas de escala é de modelo de gestão.

Silveira afirma que a estatal vive uma “falência operacional disfarçada” e alerta que o aporte público proposto “é um equívoco que transfere o custo da ineficiência para o contribuinte”.

A racionalidade ignorada

O estudo encerra com uma provocação direta à política econômica do governo. “Privatizar não é uma escolha ideológica”, escreve Silveira. “É uma imposição da racionalidade econômica e do respeito ao dinheiro público.”

No centro da análise, permanece a pergunta que ecoa entre economistas, investidores e consumidores: faz sentido emprestar mais dinheiro a uma empresa cujo valor de mercado é menor do que o próprio empréstimo?

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