A possibilidade de recuperação judicial da Raízen passou a ser discutida de forma mais aberta entre analistas e investidores diante do elevado nível de endividamento e do ambiente desfavorável para o setor sucroenergético. Apesar disso, ainda existe uma tentativa coordenada de bancos e acionistas para evitar um desfecho mais extremo.
Em entrevista à BM&C News, o estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, afirmou que a companhia ainda pode ser preservada, mas depende de concessões relevantes entre todas as partes envolvidas.
“Muita gente vai ter que fazer concessão para que a Raízen consiga evitar uma recuperação judicial ou extrajudicial”, afirmou.
Recuperação judicial da Raízen? Bancos e controladores negociam solução
Segundo Cruz, grandes credores já se mobilizam em conversas com os acionistas controladores, Cosan e Shell, para conter o aumento da percepção de risco sobre a saúde financeira da empresa.
A discussão inclui aportes relevantes de capital e reestruturação das obrigações financeiras. O estrategista avalia que os controladores podem precisar injetar valores bilionários na companhia.
“Os grandes bancos estão conversando com a Cosan e com a Shell para estancar a percepção de risco. Os acionistas devem colocar valores bilionários, pelo menos R$ 5 bilhões ou mais”, disse.
Além disso, credores financeiros também avaliam alongar prazos de pagamento da dívida.
Possibilidade de renegociação com credores
Outro ponto em debate envolve a negociação com detentores de debêntures e CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio). Entre as alternativas consideradas está a redução da remuneração desses papéis.
“A Raízen pode negociar com bancos e investidores algum tipo de haircut, talvez pagar apenas o principal, sem juros, para manter fluxo de pagamento nos próximos anos”, explicou Cruz.
Mesmo com boa parte das dívidas já alongadas, o mercado passou a questionar a capacidade de equilíbrio financeiro sem uma reestruturação mais profunda.
Efeito dominó e pressão de rating
O estrategista destaca que a deterioração da percepção de risco pode gerar um ciclo negativo típico em empresas altamente alavancadas.
“Começa um efeito dominó: fornecedores dão menos prazo, credores cobram taxas mais altas e surge uma profecia autorrealizável”, afirmou.
Rebaixamentos de classificação de crédito também ampliam a pressão, encarecendo o financiamento e reduzindo alternativas de captação.
Problema não é só da empresa, mas do setor
Cruz ressalta que a situação não decorre apenas de decisões internas, mas de um choque simultâneo de fatores macroeconômicos e setoriais.
Entre os pontos que pressionaram a companhia estão:
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queda dos preços do açúcar;
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redução do preço do etanol;
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juros elevados por mais tempo.
“Aconteceram muitas coisas ruins ao mesmo tempo para o setor. Não é só a Raízen, várias empresas sucroenergéticas também apresentam balanços pressionados”, disse.
Fornecedores e confiança
Outro risco envolve a cadeia produtiva. Parte relevante da matéria-prima utilizada pela companhia vem de produtores independentes, que podem buscar outros compradores caso aumente a percepção de risco de crédito.
Isso pode afetar diretamente o fluxo operacional e ampliar as dificuldades financeiras.
Cenário em aberto
Para o estrategista, o mercado ainda não trata a recuperação judicial como inevitável, mas já precifica uma reestruturação mais dura.
O desfecho dependerá da capacidade de coordenação entre bancos, investidores e acionistas para reduzir o endividamento e restaurar a confiança no balanço da empresa.













