A INCO, plataforma de investimentos coletivos com foco em crédito e mercado imobiliário, prepara novos produtos para atender investidores com perfil mais passivo e ampliar o acesso do público brasileiro a ativos internacionais. Entre os planos estão a criação de um fundo com operações originadas pela própria companhia, uma futura listagem em bolsa e a estruturação de uma conta global.
Em entrevista ao programa New Deal, da BM&C News, o CEO da INCO, Léo Belisário, afirmou que a estratégia da empresa é crescer de forma sustentável em um ambiente de juros elevados, sem flexibilizar os critérios de risco para acelerar a originação de novos negócios. A plataforma começou a operar no fim de 2018 e nasceu com a proposta de formalizar e escalar operações de financiamento que, especialmente no setor imobiliário, costumavam ocorrer de maneira informal entre empreendedores, familiares e investidores próximos.
Origem no mercado imobiliário
Fundada por três amigos de infância de Belo Horizonte, a INCO surgiu a partir da experiência dos sócios com o mercado imobiliário e com o setor financeiro. Belisário, que trabalhou no BTG Pactual antes de se dedicar integralmente ao negócio, afirmou que o grupo identificou uma dificuldade recorrente: empreendedores precisavam de capital para seus projetos, mas nem sempre tinham acesso estruturado a crédito ou conseguiam administrar uma base ampla de investidores.
A plataforma passou a conectar investidores e empresas em operações de financiamento, reduzindo o valor mínimo de entrada. Segundo o CEO, hoje é possível investir a partir de R$ 500, enquanto operações desse tipo tradicionalmente exigiam aportes bem mais elevados, muitas vezes entre R$ 200 mil e R$ 400 mil. A empresa afirma ter investidores em todos os estados brasileiros e em mais de 200 municípios.
“A ideia era formalizar e escalar o financiamento informal”, afirmou Belisário. O modelo permite que investidores de varejo participem das mesmas operações que clientes de maior porte, com remuneração proporcional ao valor aplicado.
Juros altos freiam originação
O cenário de Selic em torno de 14% ao ano impõe dificuldades tanto para quem busca recursos quanto para quem investe, segundo Belisário. Para empresas tomadoras de crédito, o custo aumenta porque as operações precisam oferecer um prêmio sobre a taxa básica. Para os investidores, a renda fixa tradicional se torna uma alternativa mais competitiva, elevando a exigência por retornos e segurança em ativos de maior risco.
No mercado imobiliário, que representa cerca de 70% do portfólio da INCO, a alta dos juros também afeta a ponta compradora. Com o crédito mais caro, consumidores adiam financiamentos e a venda de imóveis desacelera, sobretudo em projetos de médio e alto padrão, explicou o executivo.
O reflexo aparece na seleção de operações. De acordo com Belisário, no ano anterior a empresa fechava entre cinco e seis negócios a cada 100 oportunidades analisadas. No cenário atual, essa proporção caiu para duas ou três operações a cada 100 avaliadas.
A empresa afirma manter os filtros de risco e exigir mais garantias em um contexto de maior incerteza. “Não é um ano de pisar no acelerador; é um ano de segurar a onda”, disse o executivo, acrescentando que a expectativa inicial era quase dobrar a companhia no período, mas a projeção foi revista para preservar a sustentabilidade do negócio.
Diversificação e gestão de risco
A INCO atua principalmente com crédito direto, embora também tenha realizado algumas operações de participação em empresas e projetos. Na avaliação de Belisário, a rentabilidade mais alta desses ativos precisa vir acompanhada de diversificação, transparência e compreensão dos riscos por parte do investidor.
Na visão de Belisário, investimentos alternativos não devem representar uma parcela excessiva do patrimônio total do investidor. O executivo citou, durante a entrevista, uma exposição de até 20% como referência para esse tipo de alocação. Também defendeu que a concentração em uma única operação ou tomador seja limitada, em geral, a uma faixa entre 5% e 10% da carteira, como forma de reduzir o impacto de eventuais problemas pontuais.
“O investidor não deve concentrar demais em investimentos alternativos”, afirmou. A lógica, segundo ele, é que um portfólio diversificado possa absorver inadimplências ou resultados abaixo do previsto em determinadas operações, sem comprometer o desempenho consolidado da carteira.
Fundo e conta global
Um dos próximos passos da INCO é criar um fundo que reúna operações originadas pela plataforma. A proposta é atender investidores que não desejam selecionar cada ativo individualmente e preferem uma solução mais automatizada e diversificada.
Segundo Belisário, o Índice INCO — indicador que considera uma carteira teórica com participação igual em todas as operações realizadas desde 2018 — acumulou retorno de 187% no período, enquanto o CDI acumulou 99% no mesmo intervalo. A ideia é estruturar inicialmente um fundo dentro da plataforma, possivelmente com recorte imobiliário, para comprar parcelas das operações emitidas pela INCO. Em uma etapa posterior, o plano é buscar listagem em bolsa para ampliar a liquidez.
Hoje, a plataforma opera majoritariamente no modelo de negócio a negócio: o investidor escolhe diretamente a operação em que deseja aportar recursos. Isso pode ampliar a remuneração recebida, pois reduz custos típicos de uma estrutura de fundo, como taxas de administração, gestão e custódia. Em contrapartida, exige mais acompanhamento e montagem ativa de carteira pelo cliente.
A companhia também trabalha para ampliar a oferta de ativos internacionais ao público brasileiro. A INCO já realizou operações ligadas a empresas como SpaceX, OpenAI e Grok, além de projetos imobiliários nos Estados Unidos e em Portugal, segundo o CEO.
Para avançar nessa frente, a empresa está em processo de aprovação junto ao Banco Central para atuar como Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM), de acordo com Belisário. A licença pode viabilizar uma conta global, pela qual o investidor poderá converter reais em dólares, manter recursos no exterior e reinvestir em ativos internacionais sem a necessidade de trazer os valores de volta ao Brasil a cada evento de pagamento.
A prioridade, porém, é atender o investidor brasileiro. “O mesmo conceito é trazer investimentos alternativos, que normalmente estão acessíveis ao institucional, para o varejo”, resumiu Belisário.
