O pagamento de salários deixou de ser apenas um processo administrativo e passou a operar como uma engrenagem financeira estratégica dentro das empresas. Esse foi o ponto de partida do BM&C Business, que recebeu Fernando Gurgel, fundador e presidente do grupo Somapay, para detalhar como a empresa nasceu resolvendo um problema concreto — pagar trabalhadores sem conta bancária — e evoluiu para um ecossistema que combina tecnologia para RH, conta digital e crédito.
A Somapay nasceu em 2014, no início do ciclo das fintechs no Brasil. O contexto era simples e duro: construtoras pagavam trabalhadores em dinheiro, muitas vezes com contracheque físico, porque parte da mão de obra tinha dificuldade de abrir conta em bancos tradicionais.
“A empresa tinha que pagar em dinheiro. Então a gente viu uma oportunidade de tentar trazer um mecanismo que a empresa conseguisse pagar os funcionários sem precisar de dinheiro”, afirmou Gurgel.
A solução inicial foi um cartão de saque: o trabalhador recebia o crédito no cartão e retirava em caixas eletrônicos. O ganho imediato foi operacional e de segurança — “parava o canteiro”, havia deslocamento e risco no pagamento presencial.
Com a evolução do produto, a empresa lançou o aplicativo em 2016 e migrou de um cartão com saldo para uma conta digital, permitindo funcionalidades como consulta de saldo e transferências. A proposta, segundo o executivo, foi ampliar a utilidade da conta para além do recebimento do salário, reforçando o vínculo do trabalhador com a plataforma.
O “teste de estresse”: expansão em 2019 e choque em 2020
Uma parte importante da trajetória envolve infraestrutura. Sem acesso ao Banco24Horas no início, a fintech criou uma rede própria de caixas eletrônicos em Fortaleza — chegou a operar 40 ATMs, segundo o entrevistado. A virada veio no fim de 2019, quando o Banco24Horas abriu um hub digital para fintechs e a Somapay foi a primeira a ingressar.
O problema é que a expansão nacional planejada para 2020 encontrou o cenário da pandemia.
“A gente ampliou o nosso time, dobramos o nosso time… e em março de 2020 fechou tudo”, disse. Ele afirma que a empresa optou por não demitir e segurar o time, mesmo com perda de clientes e receita, retomando a partir de 2021.
Hoje, a Somapay tem uma estrutura em três pilares:
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Tecnologia para o RH: integração com sistemas de folha e automatização do “último quilômetro” do pagamento.
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Banking/conta digital: a empresa opera como Sociedade de Crédito Direto (SCD), regulada pelo Banco Central, oferecendo conta de pagamento, Pix, cartão e serviços do dia a dia.
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Crédito: uso de dados operacionais (tempo de empresa, salário, perfil) para desenhar ofertas de crédito voltadas ao trabalhador.
Pix reduz saque; cibersegurança vira custo central
O avanço do Pix alterou completamente o comportamento do usuário. Gurgel afirma que no começo 90% a 95% do uso era via saque; hoje, esse fluxo migrou para Pix, reduzindo a dependência de dinheiro físico e de redes de ATMs.
O custo, porém, não desapareceu — mudou de endereço. “Hoje o que a gente gasta em termos de segurança cibernética é muito dinheiro”, disse, citando camadas como reconhecimento facial e tokenização e defendendo que o sistema financeiro brasileiro opera com exigências elevadas de segurança sob supervisão do BC.
Gurgel também mencionou números de escala para ilustrar o estágio atual do grupo: atuação em mais de 2.000 empresas e, embora o site cite 200 mil contas salário, ele afirma que a base total já estaria “perto de 1 milhão de contas abertas” com transação ativa.
Educação financeira e inclusão como “propósito”
Atuando majoritariamente com público de menor renda, o executivo afirma que a empresa tenta equilibrar expansão do crédito com responsabilidade. “Quando você começa a dar um crédito, você é uma solução, mas se você exagerar você passa a ser um problema”, disse, apontando o risco de endividamento e impactos no ambiente corporativo via RH.
Para encerrar, ele definiu o propósito da Somapay como inclusão financeira — permitir que trabalhadores tenham conta, autonomia e produtos “adequados ao perfil”, evitando dependência de terceiros para movimentar dinheiro.
Próximos passos: investidor estratégico e horizonte de IPO
Sobre o futuro, Gurgel afirma que a empresa deve buscar um investidor estratégico para reforçar a expansão e, no longo prazo, considera a possibilidade de um IPO, enquanto mantém foco em ser uma “conta completa” para o trabalhador — sem entrar, por ora, em produtos globais (dólar/euro) ou investimentos, por limitações da licença.
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