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EMPRESAS E NEGÓCIOS

Empreendedor aposta em design e dados para crescer em meio ao debate sobre o futuro do SaaS

Poucas trajetórias empreendedoras brasileiras ilustram tão bem a importância de mudar a pergunta quanto a de Mário Verdi. Formado em Design, ele construiu a carreira sob influência do design thinking, abordagem que parte de uma premissa simples: antes de desenvolver soluções, é preciso compreender profundamente os problemas.

No início dos anos 2010, quando o mercado de aplicativos ainda dava seus primeiros passos no Brasil, Verdi desenvolveu uma plataforma capaz de mapear ativos urbanos, registrar ocorrências e direcionar equipes responsáveis por iluminação pública, mobiliário urbano, jardinagem e manutenção. A solução nasceu com a ambição de modernizar a gestão das cidades brasileiras, mas encontrou dificuldades para escalar no setor público.

Durante quase dois anos, o empreendedor percorreu o país apresentando o produto a secretários estaduais, gestores municipais e órgãos públicos. Conversou com representantes de grandes capitais brasileiras, participou de eventos de cidades inteligentes e chegou a conquistar contratos em São Bernardo do Campo. A experiência, segundo ele, revelou um ambiente marcado por barreiras institucionais, processos lentos e pouca abertura para empresas emergentes.

“Eu achei que poderia ganhar dinheiro com uma startup SaaS para o setor público. Descobri, na prática, como o sistema estava preparado para não ajudar o inovador”, afirma Verdi.

A insistência, porém, trouxe um aprendizado que se tornaria decisivo para os passos seguintes: tecnologia não sobrevive apenas pela qualidade técnica. É preciso entender quem compra, por que compra e qual risco deseja evitar.

A primeira grande virada veio quando Verdi deixou de oferecer uma solução pronta e passou a inverter a lógica comercial. Após conquistar visibilidade em concursos internacionais, a empresa chamou a atenção de uma agência suíça de promoção de negócios. Em vez de aceitar um roteiro convencional de prospecção, o empreendedor enviou uma lista de demandas específicas e perguntou quais regiões estariam dispostas a atendê-las.
De volta ao Brasil, o empreendedor percebeu que carregava outro desafio comum a empresas de tecnologia em estágio inicial: havia criado uma solução excessivamente flexível, capaz de atender segmentos muito distintos.

A plataforma servia para empresas de segurança, prestadores de limpeza, operadores logísticos, gestão de frotas e facilities. Era, segundo ele, uma “solução procurando problemas”. A decisão foi abandonar a lógica horizontal e escolher um mercado específico. Mais do que isso, mudou também o interlocutor.

Até então, a empresa vendia tecnologia para prestadores de serviços terceirizados. A percepção de Verdi foi que o maior valor estava do outro lado da mesa: nas corporações que contratavam esses serviços e acumulavam conhecimento operacional dentro de sistemas pertencentes aos fornecedores.

A nova abordagem defendia que as empresas deveriam ser proprietárias da plataforma que concentrava informações sobre limpeza, manutenção, ocupação e infraestrutura de seus escritórios.

Foi esse reposicionamento que abriu caminho para a criação da Deskbee, fundada em 2019. Poucos meses depois, a pandemia aceleraria a necessidade de reorganização dos ambientes corporativos.

Enquanto empresas buscavam formas de controlar distanciamento social, administrar a ocupação de escritórios e adaptar rotinas presenciais, a Deskbee já possuía ferramentas de reserva de espaços, gestão de visitantes e monitoramento de ocupação.

O crescimento veio rapidamente. De pouco mais de uma dezena de clientes no final de 2019, a empresa saltou para cerca de 150 organizações em 2020, segundo Verdi. Hoje, a Deskbee afirma atender mais de 400 empresas e reunir, em uma única plataforma, funcionalidades que vão desde reserva de mesas e salas de reunião até estacionamento, catering, transporte corporativo, caronas compartilhadas e controle de acessos.

Entre os clientes citados pela companhia estão Raízen, XP, Renault, Cielo, Volkswagen, Coca-Cola, TOTVS e John Deere.

A expansão ocorre em um momento de questionamento para a indústria de software. Nos últimos anos, investidores, empreendedores e analistas passaram a discutir os impactos da inteligência artificial sobre o modelo SaaS, especialmente em aplicações especializadas que executam tarefas pontuais e mais facilmente automatizáveis.

Verdi concorda parcialmente com o diagnóstico. Na visão do executivo, soluções inchadas ou muito específicas podem perder relevância à medida que empresas passem a criar aplicações internas apoiadas por inteligência artificial, de forma semelhante ao uso atual de planilhas eletrônicas para resolver demandas operacionais simples.

A Deskbee, no entanto, busca se posicionar em uma camada mais ampla da operação corporativa.

“A IA ameaça softwares que resolvem problemas pequenos. O que protegemos é uma operação complexa, integrada e crítica para grandes organizações”, afirma.

A estratégia da empresa passa pela ampliação do ecossistema de serviços. Além dos módulos tradicionais de workplace management, a companhia incorporou sensores capazes de medir ocupação em tempo real, adquiriu uma plataforma de caronas corporativas e desenvolve recursos para transformar escritórios híbridos em ambientes operados por dados.

A lógica, segundo Verdi, é menos a de vender licenças isoladas e mais a de oferecer uma infraestrutura digital para o funcionamento das novas rotinas corporativas.

Esse posicionamento ajuda a explicar outro indicador acompanhado de perto pelo fundador: a receita recorrente anual por colaborador. Segundo ele, a Deskbee apresenta desempenho próximo ao dobro da média internacional para empresas de software, operando com apenas duas pessoas dedicadas ao suporte técnico de uma base superior a 450 mil usuários.

A explicação, para Verdi, remete novamente à sua formação original. Para alguém que começou a carreira desenhando experiências e estudando comportamento humano, a tecnologia continua sendo consequência.

“O design sempre me ensinou que a melhor solução é aquela que as pessoas conseguem usar sem precisar pedir ajuda”, diz.

Empreendedor aposta em design e dados para crescer em meio ao debate sobre o futuro do SaaS
Mário Verdi, fundador da Deskbee, empresa de tecnologia voltada à gestão de escritórios híbridos e operações corporativas