O mercado de capitais brasileiro passa a operar, a partir de 2026, sob um novo paradigma regulatório voltado especificamente às pequenas e médias empresas (PMEs). Com a entrada em vigor do Regime FÁCIL, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) inaugura, pela primeira vez, um arcabouço de regras proporcionais ao porte dessas companhias, corrigindo uma distorção histórica que por décadas limitou o acesso das PMEs ao funding de mercado.
Na prática, até aqui empresas com faturamento anual na casa de R$ 50 milhões enfrentavam praticamente os mesmos requisitos regulatórios impostos a companhias bilionárias. O resultado foi um mercado de capitais concentrado, pouco acessível e com baixa diversidade de emissores — especialmente quando comparado a outras economias.
Segundo dados do World Bank, o Brasil tem atualmente 331 empresas listadas em bolsa, número inferior ao de países como Irã (594), Paquistão (530), Vietnã (393) e Tailândia (860), apesar de o PIB brasileiro ser superior ao dessas economias somadas. O dado expõe um problema estrutural: o mercado de capitais brasileiro nunca conseguiu formar uma base ampla de empresas.
Iniciativas anteriores, como o Bovespa Mais, fracassaram ao tentar atrair companhias menores sem alterar de forma relevante o arcabouço regulatório. Embora houvesse isenção de taxas comerciais, os requisitos de governança, auditoria e divulgação continuaram sendo os mesmos exigidos de grandes corporações, o que inviabilizou economicamente a entrada de PMEs no mercado ao longo das últimas décadas.
O que muda com o Regime FÁCIL
O Regime FÁCIL promove uma mudança regulatória estrutural ao introduzir um conjunto de inovações que reduzem significativamente o custo de entrada e permanência no mercado de capitais. Entre os principais pontos estão:
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Registro automático na CVM, após análise da entidade administradora de mercado;
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Formulário único simplificado, que substitui prospecto, lâmina e formulário de referência;
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Exigências contábeis proporcionais, com necessidade apenas do último balanço auditado e divulgação semestral de resultados;
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Oferta direta, permitindo que a própria empresa conduza sua captação sem coordenador líder.
O objetivo é permitir que empresas menores construam gradualmente sua relação com o mercado, iniciando por emissões de dívida e evoluindo, conforme ganham maturidade, para ofertas de ações.

Mercado de capitais versus crédito bancário
Na visão econômica, o Regime FÁCIL altera a lógica tradicional de financiamento das PMEs, historicamente dependentes do crédito bancário. Ao acessar o mercado de capitais, o empresário passa a diversificar suas fontes de funding, reduzir o custo médio de capital e ampliar o horizonte de planejamento financeiro.
Entre os principais efeitos estão a melhora do score de crédito junto aos bancos, maior eficiência tributária — já que emissões no mercado não pagam IOF —, além do ganho de visibilidade, credibilidade institucional e fortalecimento da governança.
No caso de companhias que optem por abrir capital, o acesso a ações negociadas publicamente também facilita operações de fusões e aquisições, sucessão societária, programas de stock options e atração de talentos, ampliando a flexibilidade estratégica da empresa no médio e longo prazo.
O papel da BEE4 no novo modelo
Na avaliação da BEE4, mercado dedicado exclusivamente às pequenas e médias empresas, o Regime FÁCIL cria uma “jornada real de acesso ao mercado de capitais”, ao permitir que companhias ingressem de forma progressiva, começando por instrumentos mais simples e avançando conforme sua estrutura de governança evolui.
A BEE4 foi concebida desde a origem para atender exclusivamente esse segmento, utilizando infraestrutura baseada em blockchain e um modelo regulatório próprio, testado no Sandbox da CVM desde 2020. Diferentemente de iniciativas anteriores, o projeto buscou desde o início adaptar as regras à realidade das PMEs, e não apenas replicar estruturas existentes.
Segundo a empresa, a consolidação do Regime FÁCIL incorpora boa parte das inovações propostas ao longo do período experimental, incluindo a ancoragem institucional de ofertas com apoio do BNDES e a formação de um ecossistema especializado, com a entrada de instituições como Itaú, Genial e Oliveira Trust.












