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ECONOMIA

Trade eleitoral expõe distorção entre perfil e posição real

O comportamento do mercado brasileiro em períodos eleitorais segue padrões identificáveis, mas a leitura apressada desses movimentos pode induzir o investidor ao erro de timing. Em entrevista à BM&C News, Gustavo Cruz mapeou como o chamado trade eleitoral se manifestou nas últimas três eleições — 2014, 2018 e 2022 — e apontou uma distorção relevante: boa parte dos investidores está posicionada de forma mais conservadora do que seu perfil de risco deveria indicar.

A análise parte de um fenômeno recorrente: o acirramento das disputas eleitorais, especialmente entre primeiro e segundo turnos, provoca oscilações em ações, juros futuros e câmbio. A intensidade e a direção desses movimentos, segundo Cruz, variam conforme o cenário seja de continuidade ou de alternância de poder.

A reação do mercado não é linear — ela depende do que está em disputa

Cruz destaca que ativos como Petrobras, Banco do Brasil e Tupy apresentaram comportamentos distintos em cada ciclo eleitoral, refletindo expectativas sobre política energética, crédito direcionado e ambiente industrial. O câmbio e os juros longos, por sua vez, funcionaram como termômetros da percepção de risco fiscal e institucional.

O ponto crítico, na leitura do especialista, está na dificuldade de antecipar o resultado eleitoral e, mais ainda, de capturar o momento de entrada ou saída de posições. Eleições criam volatilidade, mas também amplificam o custo do erro de posicionamento.

Renda fixa avança enquanto renda variável permanece travada

Nos últimos anos, a captação líquida da renda fixa cresceu de forma expressiva, enquanto a renda variável segue estagnada. Para Cruz, isso não reflete apenas aversão ao risco, mas uma acomodação que pode ser problemática no longo prazo.

Muitos investidores, segundo ele, adotaram postura mais defensiva do que seria compatível com seu perfil declarado. O problema aparece quando o ciclo vira e os ativos de risco iniciam um movimento de alta: entrar atrasado em Bolsa ou fundos imobiliários cobra seu preço em retorno relativo.

O risco não está em evitar volatilidade, mas em perder o timing do ciclo

A questão central, na visão de Cruz, não é escolher entre conservadorismo ou agressividade, mas respeitar o próprio perfil e entender que resultado passado não garante retorno futuro. O mercado não reage ao discurso, reage ao risco.

A experiência das últimas eleições mostra que o trade eleitoral oferece oportunidades, mas exige leitura de conjuntura, disciplina e clareza sobre o que se está comprando. O investidor que ignora o próprio perfil ou que superestima sua capacidade de cronometrar o mercado tende a pagar mais caro pela proteção tardia ou pela entrada precipitada.

Lula e Flavio em montagem no primeiro plano.