A trajetória descendente da Selic segue bloqueada por um conjunto de pressões que vai muito além da política doméstica. Em entrevista à BM&C News, Marcio Sette Fortes, especialista convidado pela plataforma, traçou um diagnóstico sobre o que impede o Banco Central de acelerar o ritmo de cortes na taxa básica de juros, mesmo diante de forte pressão política por afrouxamento monetário. Para ele, choques externos de preços, incertezas geopolíticas e riscos climáticos formam um cenário que justifica a cautela do Copom.
A análise foi feita às vésperas da reunião de setembro do comitê de política monetária, em um momento em que dados pontuais de inflação sugerem alívio, mas o horizonte segue carregado de ruídos.
O alívio recente do IPCA-15 esconde armadilhas que podem desfazer ganhos rápidos
Segundo Marcio Sette Fortes, o último resultado do IPCA-15 foi beneficiado por fatores temporários que não devem se repetir. A queda na pressão das passagens aéreas após o fim das férias e os créditos de energia elétrica relacionados a Itaipu ajudaram a segurar o índice, mas não refletem uma desaceleração estrutural da inflação.
O risco, na avaliação do especialista, está no “efeito rebote” que pode surgir quando esses fatores pontuais perderem força. A composição do alívio inflacionário não sinaliza convergência sustentável para a meta, mas sim uma pausa conjuntural que pode ser rapidamente revertida.
Choques externos e riscos climáticos ampliam a zona de incerteza sobre a inflação futura
Marcio Sette Fortes destacou que o Banco Central enfrenta choques de oferta que fogem ao controle da política monetária doméstica. Os preços de petróleo, combustíveis, gás e fertilizantes seguem voláteis, pressionados por tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos e Irã, com efeitos diretos sobre a energia global.
A isso se soma o risco climático. Um El Niño mais forte pode afetar safras, alimentos e logística, criando pressões inflacionárias difusas e difíceis de antecipar. Esses choques não respondem a aumentos de juros, mas ampliam a incerteza sobre o comportamento futuro dos preços, limitando o espaço para cortes mais agressivos da Selic.
O Copom prefere escadas a elevadores quando a visibilidade é baixa
“Os juros sobem de elevador e descem de escada”, afirmou Marcio Sette Fortes, sintetizando a lógica por trás do gradualismo do Banco Central. Na leitura do especialista, o Copom tende a manter uma postura cautelosa, com eventuais reduções adicionais da Selic em passos pequenos, justamente porque o cenário não oferece clareza suficiente para movimentos mais ousados.
Quem aposta em cortes rápidos pode estar subestimando a complexidade do quadro. O mercado não reage ao discurso, reage ao risco. E os riscos, neste momento, seguem elevados tanto no front externo quanto no doméstico, onde a política fiscal e as incertezas eleitorais também pesam sobre as expectativas de inflação.
A estratégia de juros reflete um BC que não quer perder o controle duas vezes
A cautela do Banco Central não é apenas técnica, é também reputacional. Após um ciclo de alta de juros intenso, o Copom sabe que reverter ganhos de credibilidade seria mais custoso do que manter o ritmo lento de queda da Selic. A estratégia é calibrar o afrouxamento monetário sem abrir espaço para desancoragem das expectativas.
Para Marcio Sette Fortes, a combinação de choques externos, efeitos temporários no IPCA e riscos climáticos mantém a trajetória da Selic em compasso de espera. O problema não é o preço, é a previsibilidade. E enquanto a visibilidade seguir baixa, o Banco Central deve continuar descendo os degraus um de cada vez.
Assista à entrevista completa da BM&C News neste link: https://www.youtube.com/watch?v=ozbIWN0DIl0
